Redação nota 1000 do Enem 2019: Isabella de Oliveira Cardoso
De modo ficcional, o filme “Cine Holiúdi” retrata o impacto positivo do cinema no cotidiano das cidades, dada a sua capacidade de promover o lazer, socialização e cultura. Entretanto, na realidade, tais benefícios não atingem toda a população brasileira, haja vista a elitização dos meios cinematográficos e a falta de infraestrutura adequada nos cinemas existentes. Sendo assim, urge a análise e a resolução desses entraves para democratizar o acesso ao cinema no Brasil.
A princípio, é lícito destacar que a elitização dos meios cinematográficos contribui para que muitos brasileiros sejam impedidos de frequentar as salas de cinema. Isso posto, segundo o filósofo inglês Nick Couldry em sua obra “Por que a voz importa?”, a sociedade neoliberal hodierna tende a silenciar os grupos menos favorecidos, privando-os dos meios de comunicação. A par disso, é indubitável que a localização dos cinemas em áreas mais nobres e o alto valor dos ingressos configuram uma tentativa de excluir e silenciar os grupos periféricos, tal como discute Nick Couldry. Nesse viés, poucos são os indivíduos que desfrutam do direito ao lazer e à cultura promovido pela cinematografia, o qual está previsto na Constituição e deve ser garantido a todos pelo Estado.
Ademais, vale postular que a falta de infraestrutura adequada para todos os cidadãos também dificulta o acesso amplo aos cinemas do país. Conquanto a acessibilidade seja um direito assegurado pela Carta Magna e os cinemas disponham de lugares reservados para cadeirantes, não há intérpretes de LIBRAS nas telas e a configuração das salas – pautada em escadas – não auxilia o deslocamento de idosos e portadores de necessidades especiais. À luz dessa perspectiva, é fundamental que haja maior investimento em infraestrutura para que todos os brasileiros sejam incluídos nos ambientes cinematográficos.
Por fim, diante dos desafios supramencionados, é necessária a ação conjunta do Estado e da sociedade para mitigá-los. Nesse âmbito, cabe ao poder público, na figura do Ministério Público, em parceria com a mídia nacional, desenvolver campanhas educativas – por meio de cartilhas virtuais e curta-metragens a serem veiculadas nas mídias sociais – a fim de orientar a população e as empresas de cinema a valorizar o meio cinematográfico e ampliar a acessibilidade das salas. Por sua vez, as empresas devem colaborar com a democratização do acesso ao cinema pela cobrança de valores mais acessíveis e pela construção de salas adaptadas. Feito isso, o Brasil poderá garantir os benefícios do cinema a todos, como relata o filme “Cine Holiúdi”.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há presença de apenas um desvio – “curta-metragens” – no último parágrafo de seu texto.
Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a participante apresenta introdução em que expõe seu ponto de vista, desenvolvimento de justificativas que comprovam esse ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa, o que revela uma leitura cuidadosa da proposta de redação: logo no primeiro parágrafo, a participante já apresenta o problema que será discutido no texto, reforçando sua importância para a sociedade. Observa-se também o uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta pela participante em mais de um momento do texto: no primeiro parágrafo, há a referência ao filme “Cine Holliúdy” para exemplificar a importância do cinema como promotor de cultura em uma comunidade. No segundo parágrafo, a participante utiliza a obra de Nick Couldry como argumento de autoridade para explicar os fatores que geram exclusão de determinada camada da sociedade do acesso à cultura. Ainda no segundo parágrafo e novamente no terceiro, ela se vale da Constituição Federal para fundamentar a necessidade de promover a democratização do acesso ao cinema.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. Logo no primeiro parágrafo, a participante destaca a importância do cinema e a democratização deficiente do acesso a ele no Brasil, apontando dois fatores principais: a elitização do cinema e a falta de infraestrutura adequada. Nos dois parágrafos seguintes, esses fatores serão, cada um em um parágrafo, aprofundados. Em seu último parágrafo, a participante reflete sobre esses fatores e propõe soluções muito bem articuladas a eles.
Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Ademais”, “Por fim”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “Entretanto”, “tais benefícios”, “Sendo assim”; 2º parágrafo: “Isso posto”, “A partir disso”, “o qual”; 3º parágrafo: “também”, “Conquanto”, “dessa perspectiva”; 4º parágrafo: “Nesse âmbito”, “a fim de”, “Por sua vez”, entre outros).
Por fim, a participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desenvolvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos. Ela propõe a criação de campanhas de valorização do cinema e a ampliação do acesso a salas de cinema por meio da diminuição dos valores dos ingressos e da adaptação de salas ao público de pessoas com deficiência.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2020: cartilha do participante, página 47 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.