Questão 30 do ENEM 2017
Contranarciso
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
LEMINSKI, P. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
A busca pela identidade constitui uma faceta da tradição literária, redimensionada pelo olhar contemporâneo. No poema, essa nova dimensão revela a
- Aausência de traços identitários.
- Bangústia com a solidão em público.
- Cvalorização da descoberta do “eu” autêntico.
- Dpercepção da empatia como fator de autoconhecimento.
- Eimpossibilidade de vivenciar experiências de pertencimento.
Resolução comentada
A questão pede a "nova dimensão" que o olhar contemporâneo dá à busca pela identidade. Na tradição literária, o "eu" costuma se procurar olhando para dentro de si, de forma individual e isolada. O título, "Contranarciso", já indica o contrário: Narciso se admira no próprio reflexo, e aqui o eu não se vê sozinho.
Acompanhe o poema:
- "Em mim eu vejo o outro, e outro, e outro": ao olhar para dentro, o eu encontra várias pessoas, como trens cheios de gente. A identidade é formada pelos outros.
- "O outro que há em mim é você": o outro tem rosto, é o interlocutor.
- "Assim como eu estou em você, eu estou nele, em nós": a relação é de mão dupla, os eus se misturam.
- "Só quando estamos em nós estamos em paz, mesmo que estejamos a sós": o bem-estar vem de se reconhecer no coletivo, e não do isolamento.
Portanto, conhecer-se passa por se colocar no lugar do outro e reconhecê-lo em si. Isso é a empatia como caminho de autoconhecimento, o que corresponde à alternativa D.
As demais falham porque o poema mostra identidade abundante (não ausente), paz (não angústia), busca do outro (não de um eu autêntico isolado) e pertencimento possível.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO eu tem muitos traços identitários, formados pelos outros que o habitam; não há ausência.
- BO poema fala de paz mesmo a sós, não de angústia com a solidão em público.
- CNão se busca um eu autêntico e isolado; o eu é construído na relação com o outro, o oposto de Narciso.
- EO poema afirma o pertencimento ("em nós"), não sua impossibilidade.
Assuntos: poesia contemporânea, identidade e alteridade.
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