Redação nota 1000 do Enem 2015: Alícia Cristine Salome Rozza
Na revolução de 1930, paulistas insatisfeitos com a falta do poder político que detinham na República do café com leite usaram a falta de uma constituição para se rebelar contra o governo Vargas. O presidente, cedendo às pressões, garantiu na nova Constituição um direito nunca antes conquistado pela mulher: o direito ao voto. A inclusão da mulher na sociedade como cidadã, porém, não foi o suficiente para deter o pensamento machista que acompanhou o Brasil por tantos séculos – fato evidenciado nos índices atuais altíssimos de violência contra a mulher.
De acordo com o Mapa da Violência de 2012, entre 1980 e 2010 houve um aumento de 230% na quantidade de mulheres vítimas de assassinato no país; além disso, 7 de cada 10 mulheres que telefonaram para o Ligue 180 afirmaram ter sido violentadas pelos companheiros. Em países como o Afeganistão, a mulher que trai o marido é enterrada até que somente a cabeça fique à mostra e, então, é apedrejada; apesar de reagirmos com horror perante tal atrocidade, um país que triplica a quantidade de mulheres mortas em 30 anos deve ser tratado com igual despeito quando se trata do assunto. Apesar de acharmos que a mentalidade do povo melhora com o passar do tempo, a mentalidade brasileira mostra crescente atraso quanto à igualdade de direitos entre os gêneros, e tal mentalidade leva a fatalidades que deveriam ser raras em pleno século XXI.
Uma pesquisa feita pela Rede Globo mostrou que, entre homens e mulheres entrevistados, mais da metade afirmou que mulheres que vestem roupas curtas merecem ser abusadas sexualmente. A violência contra a mulher começa exatamente com as regras implícitas que a sociedade impõe: se a mulher não seguir tal regra, merece ser violentada. Portanto, apesar de todos os direitos conquistados constitucionalmente pelo sexo feminino, normas culturais que passam entre gerações fazem o pensamento conservador e machista se perpetuar e ser a justificativa para as atrocidades físicas e psicológicas cometidas contra a mulher.
Muitas vezes presa a um relacionamento de muito tempo, a mulher aceita a condição à qual é submetida e se nega a procurar algum tipo de ajuda. A mudança deve acontecer de três formas: primeiramente, a mulher não pode deixar-se levar pelo pensamento machista da sociedade e deve entender que não há justificativa para a agressão; pessoas que têm conhecimento de mulheres que aceitam a violência, por sua vez, devem telefonar para o Ligue 180 com ou sem o consentimento da vítima; e, por fim, a geração atual deve preocupar-se em deixar de transmitir culturalmente a ideia de que o gênero feminino é inferior. Para que as gerações seguintes vivam em um país igualitário, a mudança começa agora.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
O texto demonstra que a participante tem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa e de escolha de registro. Não há erros gramaticais ou de convenções da escrita, a não ser pelo uso impróprio da palavra “despeito”, no segundo parágrafo.
A participante desenvolve o tema proposto no enunciado da prova por meio de argumentação consistente, fundamentada em repertório sociocultural produtivo, já que cita adequadamente a instituição do voto feminino por Getúlio Vargas na década de 1930.
Apresenta também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão. A redação organiza-se em quatro parágrafos bem construídos e bem articulados entre si. Em seu texto, o tema é desenvolvido de modo consistente e autoral em defesa de seu ponto de vista, por meio do acesso a outras áreas do conhecimento, com progressão fluente e articulada ao ponto de vista defendido.
O ponto de vista defendido é o de que é necessário combater efetivamente o pensamento machista e conservador “que acompanhou o Brasil por tantos séculos” e que promove a perpetuação da violência contra a mulher. A redação apresenta encadeamento entre as ideias e demonstra a competência da participante em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista: o tema é desenvolvido de forma coerente, os argumentos selecionados são consistentes e a conclusão é relacionada ao ponto de vista adotado.
A participante articula bem as ideias, os argumentos, as partes do texto e apresenta, sem inadequações, repertório diversificado de recursos coesivos, tais como: “porém” (1° parágrafo); “De acordo com”, “além disso”, “apesar de”, “a tal” (2° parágrafo); “Portanto” (3° parágrafo); “primeiramente”, “por sua vez”, “e, por fim” (4° parágrafo).
O texto apresenta excelente proposta de intervenção, desdobrada em três frentes: conscientização das mulheres, que não devem “deixar-se levar pelo pensamento machista da sociedade”; denúncias pelo Ligue 180, com ou sem o consentimento da vítima, e mudança nas crenças culturais. Trata-se de redação cuja proposta de intervenção é abrangente, bem elaborada e bem detalhada, além de ser relacionada ao tema e resultar de discussão desenvolvida no texto.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 57 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.