Redação nota 1000 do Enem 2015: Julia Curi Augusto Pereira
Permeada pela desigualdade de gênero, a história brasileira deixa clara a posição inferior imposta a todas as mulheres. Essas, mesmo após a conquista do acesso ao voto, ensino e trabalho – negado por séculos – permanecem vítimas da violência, uma realidade que ceifa vidas e as priva do direito a terem sua integridade física e moral protegida.
O machismo e a misoginia são promovidos pela própria sociedade. Meninas são ensinadas a aceitar a submissão ao posicionamento masculino, ainda que estejam inclusas agressões e violência, do abuso psicológico ao sexual. Os meninos, por sua vez, têm seu caráter construído à medida que absorvem valores patriarcais e abusivos, os quais serão refletidos em suas condutas ulteriores.
Um dos conceitos filosóficos de Francis Bacon, que declara o comportamento humano como contagioso, se aplica perfeitamente à situação. A violência de gênero, conforme permanece a ser reproduzida, torna-se enraizada e frequente. Concomitantemente, a voz das mulheres é silenciada e suas manifestações são reprimidas, o que favorece o mantimento das atitudes misóginas.
O ensino veta todo e qualquer tipo de instrução a respeito do feminismo e da igualdade de gênero e contribui com a perpetuação da ignorância e do consequente preconceito. Ademais, os veículos de comunicação pouco abordam a temática, enquanto o Estado colabora com a Lei Maria da Penha, nem sempre eficaz, e com unidades da Delegacia da Mulher, em número insuficiente.
Entende-se, diante do exposto, a real necessidade de ações governamentais que garantam que a lei puna todos os tipos de violência, além da instalação de delegacias específicas em áreas necessitadas. Cabe à sociedade, em parceria com a mídia e com as escolas, instruções sobre igualdade de gênero e campanhas de oposição à violência contra as mulheres. Essas, por fim, devem permanecer unidas, através do feminismo, em busca da garantia de seus direitos básicos e seu bem-estar social.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
A participante demonstra que tem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa tanto pelas estruturas linguísticas construídas como pela seleção lexical e pela escolha de registro. Não há erros de convenções da escrita. Como única inadequação, aponta-se, no terceiro parágrafo, o emprego do verbo permanecer (em vez de continuar), no trecho “conforme permanece a ser reproduzida”.
A redação está estruturada em cinco parágrafos, nos quais são organizados blocos temáticos independentes, mas bem articulados entre si.
O tema proposto no enunciado da prova é bem desenvolvido pela participante, por meio de argumentação consistente, fundamentada em repertório sociocultural produtivo, uma vez que cita Francis Bacon, extrapola as ideias apresentadas nos textos motivadores e focaliza a natureza machista e patriarcal da sociedade brasileira. Apresenta também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão. O tema se desenvolve de modo fluente e articulado ao ponto de vista defendido, configurando autoria.
Em defesa de seu ponto de vista, a texto apresenta informações relacionadas ao papel da educação e dos veículos de comunicação na construção da desigualdade entre os gêneros e do preconceito contra a mulher.
A redação apresenta encadeamento entre as ideias e a participante demonstra competência em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista: o tema é desenvolvido de forma coerente, os argumentos selecionados são consistentes e a conclusão é relacionada ao ponto de vista adotado.
Além de assegurar a continuidade e a progressividade temáticas, o texto articula, sem inadequações, repertório diversificado de recursos coesivos, que concatenam as informações apresentadas, como “Essas” (1° parágrafo); “ainda que”, “por sua vez”, “os quais” (2° parágrafo), “se aplica perfeitamente à situação”, “o que” (3° parágrafo); “Ademais” (4° parágrafo); “diante do exposto”, “além”, “Essas” (5° parágrafo).
Ao elaborar sua excelente proposta de intervenção, que respeita os direitos humanos, a participante considera que são necessárias ações governamentais, como a multiplicação de delegacias especiais de atendimento à mulher, e ações da sociedade, dos meios midiáticos e do sistema educacional em campanhas de oposição à violência contra as mulheres. A proposta de intervenção relaciona-se ao tema e resulta da discussão desenvolvida no texto, além de ser abrangente, bem elaborada e bem detalhada.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 55 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.