Redação nota 1000 do Enem 2014: Taiane Cechin

Tema: Publicidade infantil em questão no Brasil · Escola privada de Veranópolis – RS

Publicidade infantil: enclave à faixa etária pueril

“A palavra é instrumento irresistível da busca pela liberdade”, afirmou Rui Barbosa em relação ao direito de expressão. No entanto, a liberdade de imprensa e propaganda, garantida pela constituição brasileira, depara-se com limites no que tange à persuasão aos pequenos. Esses, vivenciando a fase pueril, não detêm a criticidade desenvolvida e, consequentemente, são facilmente influenciáveis. Assim, a publicidade infantil brasileira progride apelando às crianças e, dessa maneira, necessita de reparos que atenuem os tons abusivos e persuasivos.

A propaganda é meio eficiente a atingir a venda de produtos, já que, através de artifícios intrigantes, como imagens e até personalidades famosas, coage os consumidores. As crianças são alvos constantes da publicidade, pois, dotadas de desejo e imaginação, creem no mundo utópico desenvolvido pelos efeitos dos anúncios. Assim, devido a sua efetividade, os publicitários focam na criação de técnicas persuasivas ao público pueril e lançam suas propagandas em horários convergentes aos que os pequeninos assistem aos desenhos animados e programas afins. A criatividade dos que são graduados para apelar ao consumidor ganha o coração das crianças e perpetua os comerciais para essa faixa etária.

Em âmbito internacional divergem as decisões acerca do tema proposto, existindo legislação de proibição total à publicidade infantil, medidas que a permite apenas em determinados horários e há, ainda, países que não a restringem. O Brasil carece de mudanças na forma com que são realizadas as propagandas infantis, já que o público pueril é permeado diariamente por mensagens de cunho abusivo e persuasivo. Entretanto, o Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente iniciou um debate em relação ao tópico, dando um passo em benefício aos pequeninos da nação tupiniquim.

Em síntese, a publicidade infantil brasileira deve ser modificada com aplicações eficientes das decisões governamentais anteriormente citadas. É necessário adequar as propagandas infantis para horários propícios, quando os pais possam acompanhar seus filhos, interagindo acerca dos anúncios. É possível também exigir que as empresas de publicidade retirem os efeitos que engrandecem os produtos, de forma a iludir o consumidor, e atenuar a presença de personalidades artísticas nas propagandas. Dessa forma, o Brasil pode evoluir como uma nação que zela pelo seu potencial infantil e garantir aos pequenos o essencial, livrando-os do desejo de supérfluos e contribuindo para a formação de cidadãos críticos, conscientes dos temas circundantes.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Taiane Cechin na cartilha do INEP
Comentário da banca

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa tanto pelas estruturas linguísticas construídas como pela seleção lexical e de registro. Não há erros gramaticais ou de convenções da escrita, exceto pelo desvio de concordância verbal em “medidas que a permite” (3° parágrafo) e por um problema estilístico decorrente da proximidade entre “consequentemente” e “facilmente” (primeiro parágrafo, linha 5). A redação está estruturada em quatro parágrafos, nos quais são organizados blocos temáticos independentes, mas bem articulados entre si.

O tema proposto no enunciado da prova é bem desenvolvido pela participante, por meio de argumentação consistente, a partir de repertório sociocultural produtivo, haja vista, por exemplo, a citação de Rui Barbosa e o desenvolvimento de ideias que extrapolam as apresentadas nos textos motivadores. Ela enfoca os limites do direito de expressão diante da necessidade de controle dos recursos persuasivos empregados pela propaganda destinada ao vulnerável público infantil. Assim, constrói sua argumentação por meio de um exemplo claro de que deve haver limites à liberdade de expressão – debate atual na sociedade.

Focaliza ainda a infância como uma fase de formação em que os indivíduos são facilmente influenciáveis. Além disso, caracteriza as estratégias e técnicas utilizadas pela propaganda para persuadir o público infantil. Apresenta também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão. O tema é desenvolvido com progressão fluente, articulada ao ponto de vista defendido, configurando autoria. A tese desenvolvida é a de que a publicidade infantil deve ser controlada.

Em defesa de seu ponto de vista, a participante apresenta informações acerca da vulnerabilidade das crianças à influência da publicidade. A redação apresenta encadeamento entre as ideias e demonstra competência da aluna em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista: o tema é desenvolvido de forma coerente, os argumentos selecionados são consistentes e a conclusão é relacionada ao ponto de vista adotado.

A participante, além de assegurar a continuidade e a progressividade temáticas, articula, sem inadequações, repertório diversificado de recursos coesivos, que entrelaçam as informações apresentadas, por meio do emprego de termos, tais como: “No entanto”, “Esses”, “dessa maneira” (1° parágrafo); “já que”, “pois”, “Assim” (2° parágrafo); “Entretanto” (3° parágrafo); “Em síntese”, “Dessa forma” (4° parágrafo).

Ao elaborar sua excelente proposta de intervenção, que respeita os direitos humanos, a participante considera necessário exigir que as empresas não utilizem recursos persuasivos que iludam as crianças, bem como adequar o horário da publicidade infantil, a fim de que os pais possam acompanhar ao que os filhos assistem, além de restringir o abuso por meio de medidas governamentais. A proposta de intervenção é abrangente, bem detalhada e bem elaborada, relaciona-se ao tema e provém da discussão desenvolvida no texto.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 46 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.