Redação nota 1000 do Enem 2014: Douglas Mansur Guerra
Do VHS ao Blu-Ray
Nas antigas fitas VHS, a divulgação dos novos filmes disponíveis para aparelhos de DVD tornava a criança uma consumidora compulsória, capaz de qualquer coisa por aquele novo meio de assistir filmes. Na atualidade, isso se repete quando os discos da Disney mostram-se disponíveis em Blu-Ray. Entretanto, até onde essa publicidade infantil influencia no desenvolvimento da criança? Tal influência seria benéfica? Para o Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), não. Essa postura representa um importante passo para o Brasil.
De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, é na infância que os indivíduos passam pelo processo de socialização, ou seja, adquirem os valores morais e éticos da sociedade em que se encontram. Se, nesse período, a criança for bombardeada por uma série de propagandas ideológicas, ela pensará que a felicidade só pode ser alcançada ao lanchar em determinado restaurante, ao adquirir determinado brinquedo ou ao vestir determinadas roupas. Há, portanto, a necessidade de banir quaisquer tipos de publicidade que utilizem a ingenuidade infantil para a obtenção de um maior mercado consumidor.
Ademais, esse banimento não deve ser feito apenas com acordos entre o setor publicitário e o governo. É necessária uma legislação que assegure um desenvolvimento livre de manipulações para as crianças. Além de coibir tais propagandas deve-se punir aqueles que as utilizarem. Para isso, é preciso reformular o Código Penal brasileiro, vigente desde 1941 – contexto de um país ruralizado, com relações jurídicas menos complexas que as atuais – e insuficiente para punir tais infratores.
Não é, no entanto, responsabilidade única do Estado a atual situação da publicidade infantil brasileira. Como afirmou Sérgio Buarque, em sua obra “Raízes do Brasil”, os brasileiros estão acostumados a tratarem o Estado como um pai, deixando todas as questões político-sociais em suas mãos. Com a finalidade de proteger suas crianças, cabe aos pais abandonar essa característica patrimonialista e exigir mudanças, sem depender de governo ou de agências publicitárias.
Percebe-se, destarte, que a publicidade infantil, para ser regulamentada e controlada, necessita de uma ação conjunta entre o Estado, o setor publicitário e os cidadãos. No nível juridico, estabelecer normas para as agências publicitárias (não utilizar personalidades infantis ou associar felicidade a consumo) é uma medida extremamente eficaz. Corrobora tal ação a fiscalização das propagandas por parte da sociedade, a partir de reclamações publicadas em fóruns virtuais. Desse modo, assegura-se o desenvolvimento das crianças brasileiras livre de instrumentos de alienação.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
O participante tem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa, o que é demonstrado pelas estruturas sintáticas, pela seleção lexical e de registro. Não há erros gramaticais ou de convenções da escrita, além da ausência de vírgula após “propagandas” (3° parágrafo) e de acento agudo em “juridico” (5° parágrafo). A redação é composta por cinco parágrafos bem construídos e bem articulados entre si.
O participante desenvolve o tema apresentado no enunciado da prova, lançando mão de argumentação consistente, pautada por repertório sociocultural produtivo, haja vista a referência adequada a Émile Durkheim e Sérgio Buarque de Holanda, além da apresentação de argumentos que não estão nos textos motivadores, como é o caso da insuficiência do Código Penal de 1941 em regular relações jurídicas contemporâneas, como a complexa relação estabelecida pela publicidade e os consumidores. Observa-se também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão.
Desenvolve-se a tese de que é necessário, por meio de legislação específica, combater efetivamente a publicidade infantil, pois esta incita o desenvolvimento de valores morais e éticos equivocados. A propaganda dirigida às crianças se vale da ingenuidade infantil, a fim de alienar, impor desejos e conduzir ao consumo exagerado e desnecessário.
O texto apresenta argumentos relacionados ao tema da publicidade dirigida ao público infantil de forma consistente e organizada, configurando autoria. O participante demonstra competência em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista, desenvolvendo o tema de forma consistente e coerente e elaborando conclusão relacionada ao ponto de vista explicitado no texto.
O participante ainda utiliza repertório diversificado de recursos coesivos, sem incorrer em inadequação. Articula bem as ideias, os argumentos e as partes do texto. Entre os termos que constituem coesão textual e articulação entre as ideias estão: “isso”; “Entretanto”; “essa”, “Tal influência”, “Essa postura” (1° parágrafo); “nesse período”, “portanto” (2° parágrafo); “Ademais”, “esse banimento”, “Para isso”, “tais infratores” (3° parágrafo); “no entanto”, “essa característica” (4° parágrafo); “destarte”, “tal ação”, “Desse modo” (5° parágrafo).
O participante elabora, ao longo do texto, excelente proposta de intervenção que respeita os direitos humanos: legislação específica e reformulação do Código Penal; fiscalização da publicidade e punição aos infratores; participação efetiva dos pais na exigência de mudanças que visem à coibição das práticas abusivas da publicidade; e articulação entre Estado, setor publicitário e sociedade. Assim, a proposta, abrangente e detalhada, vincula-se à discussão desenvolvida no texto.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 48 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.