PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 58 do ENEM 2008
A velha Totonha de quando em vez batia no engenho. E era um acontecimento para a meninada... Que talento ela possuía para contar as suas histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens, sem nenhum dente na boca, e com uma voz que dava todos os tons às palavras!
Havia sempre rei e rainha, nos seus contos, e forca e adivinhações. E muito da vida, com as suas maldades e as suas grandezas, a gente encontrava naqueles heróis e naqueles intrigantes, que eram sempre castigados com mortes horríveis! O que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha nos seus descritivos. Quando ela queria pintar um reino era como se estivesse falando dum engenho fabuloso. Os rios e florestas por onde andavam os seus personagens se pareciam muito com a Paraíba e a Mata do Rolo. O seu Barba-Azul era um senhor de engenho de Pernambuco.
José Lins do Rego. Menino de Engenho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980, p. 49-51 (com adaptações).
Na construção da personagem “velha Totonha”, é possível identificar traços que revelam marcas do processo de colonização e de civilização do país. Considerando o texto acima, infere-se que a velha Totonha
- Atira o seu sustento da produção da literatura, apesar de suas condições de vida e de trabalho, que denotam que ela enfrenta situação econômica muito adversa.
- Bcompõe, em suas histórias, narrativas épicas e realistas da história do país colonizado, livres da influência de temas e modelos não representativos da realidade nacional.
- Cretrata, na constituição do espaço dos contos, a civilização urbana européia em concomitância com a representação literária de engenhos, rios e florestas do Brasil.
- Daproxima-se, ao incluir elementos fabulosos nos contos, do próprio romancista, o qual pretende retratar a realidade brasileira de forma tão grandiosa quanto a européia.
- Eimprime marcas da realidade local a suas narrativas, que têm como modelo e origem as fontes da literatura e da cultura européia universalizada.
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Resolução comentada
O texto mostra uma contadora popular, sem dentes, que aparece "de quando em vez" no engenho. Suas histórias trazem elementos típicos dos contos de fadas europeus: rei, rainha, forca, adivinhações e o Barba-Azul. Esses são modelos da cultura europeia, trazidos pela colonização.
O que a torna "mais curiosa" é a cor local: ela adapta esses modelos à realidade que conhece. Os reinos parecem engenhos, os rios e florestas lembram a Paraíba e a Mata do Rolo, e o Barba-Azul vira senhor de engenho de Pernambuco.
Assim, a personagem une dois movimentos: a herança da matriz europeia, que é a origem e o modelo das histórias, e a apropriação brasileira, que é a marca local. Isso revela o processo de colonização e de civilização do país.
Testando as alternativas:
- Nada no texto diz que ela vive da literatura nem que ganha dinheiro contando histórias.
- As histórias têm reis, rainhas e forcas, ou seja, sofrem influência de modelos europeus, e não estão livres dela.
- O espaço dos contos é brasileiro (engenho, Paraíba), e não a civilização urbana europeia.
- O texto não fala de romancista que queira igualar o Brasil à Europa.
- Ela aplica a realidade local a narrativas de origem europeia. É o que o texto diz.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto não diz que ela sobrevive da literatura; a pobreza é suposição sem apoio no trecho.
- BAs histórias seguem modelos europeus (reis, rainhas, Barba-Azul), então não estão livres de influências externas.
- CO espaço dos contos é rural e brasileiro; não há retrato da civilização urbana europeia.
- DAtribui ao romancista a intenção de igualar o Brasil à Europa, o que não aparece no texto.
Assuntos: Romance de 30: regionalismo e romance social, Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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