PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 46 do ENEM 2008
São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:
— Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor... (...)
E outro:
— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).
O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao
- Aexpressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a idéia de uma coisa por meio de outra.
- Bmanter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.
- Ccontar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
- Devocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas.
- Evaler-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético.
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Resolução comentada
A questão pede a característica marcante do gênero crônica que aparece no texto de Rubem Braga.
A crônica parte de um fato banal do dia a dia, noticiado ou vivido por todos, e o transforma em texto literário, com linguagem trabalhada, humor, ironia e lirismo. Ela não se limita a informar.
No fragmento, o fato é o recenseamento em São Paulo, um acontecimento cotidiano e sócio-histórico. Rubem Braga não o relata como notícia. Ele cria cenas imaginadas, com falas de moradores:
- o homem que diz que só restaram pulgas e ratos;
- o homem que conta mulher, papagaio, sogra e baratas;
- o homem que conta a saudade da mulher ausente como se ela estivesse presente.
Há humor, ironia e até emoção, com tratamento estético da linguagem ("bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números"). É exatamente o tema cotidiano como ponto de partida para um texto artístico.
Testando as demais alternativas:
- A descreve a linguagem simbólica, própria da poesia ou da alegoria, e o texto é concreto.
- B fala de fidelidade aos fatos, de um só tempo e espaço, mas aqui há vários lugares e cenas inventadas.
- C descreve o enigma policial, e não há enigma.
- D aponta o objetivo de ensinar e informar, e não é essa a finalidade da crônica.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- ADescreve linguagem abstrata e simbólica, mas o texto trata de cenas concretas do cotidiano.
- BO texto não é fiel a fatos nem se limita a um só tempo e espaço: percorre vários lugares e imagina falas.
- CNão há enigma a resolver nem construção psicológica gradual dos personagens, característica do conto ou romance policial.
- DA sátira existe, mas a crônica não tem como finalidade transmitir ensinamentos práticos nem informar.
Assunto: Crônica e relatos do cotidiano.
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