Questão 16 do ENEM PPL 2023

1º dia · Linguagens, Códigos

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos.

Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

CAMINHA, P. V. A carta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 31 out. 2021.

Esse texto é um fragmento da carta de Pero Vaz de Caminha para o rei de Portugal, cuja importância documental reside no fato de

  1. A
    apresentar usos pouco comuns do português padrão da época.
  2. B
    descrever o estranhamento do autor ao chegar ao Brasil.
  3. C
    fazer um inventário do expediente das rotinas de navegação e achados da tripulação.
  4. D
    exemplificar procedimentos de comunicação formal em um contexto de forte hierarquia.
  5. E
    ser um registro histórico e linguístico do período em que foi redigido.
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Resolução comentada

A pergunta pede em que consiste a importância documental da carta de Caminha, isto é, por que ela vale como documento.

Um documento tem valor por registrar informações de uma época. Na carta, isso aparece de duas formas:

  1. Registro histórico: o autor relata as primeiras impressões da terra recém-avistada, com clima, águas e a possibilidade de metais como ouro e prata. Também mostra o interesse de Portugal na rota de Calicute e o projeto de "salvar esta gente", ou seja, de expandir a fé cristã. Tudo isso revela a mentalidade da expansão marítima portuguesa.

  2. Registro linguístico: o texto foi escrito no século XVI e traz a sintaxe, o vocabulário e as formas de tratamento da época ("lha vimos", "dar-se-á nela", "Vossa Alteza"). Por isso serve de testemunho de como o português era usado então.

Agora, as alternativas. Não se trata de "usos pouco comuns", pois eram usos normais na época. O trecho não descreve estranhamento, e sim avalia a terra em termos de proveito. Não há inventário de rotinas de navegação. A formalidade existe, mas não é o que dá valor documental à carta. Só a alternativa que une o registro histórico e o linguístico do período responde ao que foi perguntado.

Alternativa E.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • Atrata como incomuns usos que eram o padrão do português da época, e isso não explica o valor documental.
  • Bo trecho não expressa estranhamento; avalia a terra por seu proveito e pela evangelização.
  • Cnão há inventário de rotinas de navegação nem de achados da tripulação; o texto fala da terra.
  • Do tratamento formal ao rei existe, mas não é o que fundamenta a importância documental do texto.

Assuntos: carta de Pero Vaz de Caminha, quinhentismo, função documental do texto.

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