Questão 32 do ENEM PPL 2018
esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é meu dono
bicho se é por destino sina ou sorte
só faltando saber se bicho decente
bicho de casa, bicho de carro, bicho
no trânsito, se bicho sem norte na fila
se bicho no mangue, se bicho na brecha
se bicho na mira, se bicho no sangue
catar papel é profissão, catar papel
revela o segredo das coisas, tem
muita coisa sendo jogada fora
muita pessoa sendo jogada fora
OLIVEIRA, V. L. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras, 2014.
No poema, os elementos presentes do campo de percepção do eu lírico evocam um realinhamento de significados, uma vez que
- Aemerge a consciência do humano como matéria de descarte.
- Breside na eventualidade do acaso a condição do indivíduo.
- Cocorre uma inversão de papéis entre o dono e seu cão.
- Dse instaura um ambiente de caos no mosaico urbano.
- Ese atribui aos rejeitos uma valorização imprevista.
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Resolução comentada
O poema mostra a perspectiva de um catador de papel, que caminha pela cidade acompanhado do cão. Os elementos que ele percebe (o cão, o papel jogado fora, os "bichos" no trânsito, na fila, no mangue) passam a ter outro sentido, um realinhamento de significados.
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Na primeira estrofe, o cão é "família", "irmão" e até "dono". Isso trata da relação com o animal, mas é só um dos elementos percebidos.
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Na segunda estrofe, "bicho" passa a designar pessoas: "bicho sem norte na fila", "bicho na mira", "bicho no sangue". O humano é tratado como animal, marginalizado.
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Na terceira estrofe, o eu lírico diz que catar papel "revela o segredo das coisas": "muita coisa sendo jogada fora / muita pessoa sendo jogada fora". Aqui o lixo, que é coisa descartada, é ligado às pessoas descartadas.
Esse é o ponto que reorganiza o sentido: ao lidar com o lixo, o catador percebe que a sociedade também descarta gente, como faz com objetos. Emerge, portanto, a consciência de que o ser humano pode ser tratado como matéria de descarte.
As demais alternativas tomam apenas um trecho do poema ou dizem algo que o texto não afirma.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BO poema não atribui a condição do indivíduo ao acaso; fala de exclusão social, e "destino, sina ou sorte" é só uma hipótese posta em dúvida.
- CA inversão dono/cão aparece só na 1ª estrofe e não explica o realinhamento de significados do poema todo.
- DO poema não descreve caos urbano, e sim a exclusão de pessoas na cidade.
- EOs rejeitos não são valorizados; o que se revela é que pessoas são tratadas como rejeito.
Assuntos: interpretação de poema, função social da literatura.
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