Questão 31 do ENEM PPL 2017
A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. Seis. O pai, amparado pela prateleira da cozinha, com o suor desinfetando o ar, tamanho o cheiro do álcool, reparava na fome dos filhos. Enxergava o manejo da faca desafiando o tomate e, por certo, nos pensava devorados pelo vento ou tempestade, segundo decretava a nova mulher. Todos os dias — cotidianamente — havia tomate para o almoço. Eles germinavam em todas as estações. Jabuticaba, manga, laranja, floresciam cada uma em seu tempo. Tomate, não. Ele frutificava, continuamente, sem demandar adubo além do ciúme. Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cortá-lo. As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar.
QUEIRÓS, B. C. Vermelho amargo. São Paulo: Cosac & Naify, 2011.
Ao recuperar a memória da infância, o narrador destaca a importância do tomate nos almoços da família e a ação da madrasta ao prepará-lo. A insistência nessa imagem é um procedimento estético que evidencia a
- Asaudade do menino em relação à sua mãe.
- Binsegurança do pai diante da fome dos filhos.
- Craiva da madrasta pela indiferença do marido.
- Dresistência das crianças quanto ao carinho da madrasta.
- Econvivência conflituosa entre o menino e a esposa do pai.
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Resolução comentada
O trecho é narrado por um menino que lembra da infância. A cena do tomate é o centro da memória, e o narrador a transforma em símbolo de algo que vai além da comida.
Observe como a ação da madrasta é descrita:
- As fatias são finas demais, "capaz de envenenar a todos".
- Ela afia a faca e corta o tomate "sanguíneo", "como se degolasse cada um de nós".
- O tomate nasce o ano todo, sem adubo "além do ciúme".
- As fatias "escreviam um ódio" que só quem se sente "intruso ao amor" consegue engolir.
O tomate, então, é uma metáfora da tensão doméstica. A economia de comida e a violência dos gestos mostram a hostilidade entre a madrasta e as crianças, e o ciúme é o que "alimenta" essa rotina. O narrador, que se sente intruso, percebe o ritual como uma agressão simbólica contra ele e os irmãos.
Portanto, a repetição da imagem revela a convivência conflituosa entre o menino e a esposa do pai.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA saudade aparece só de passagem ("saudade evaporando pelos olhos") e não é o que a imagem do tomate evidencia.
- BO pai está bêbado e apenas observa; o texto não fala em insegurança dele, e o foco é a madrasta.
- CNão há indício de raiva da madrasta pela indiferença do marido; o ciúme e o ódio se dirigem às crianças.
- DNão se trata de resistência das crianças ao carinho, pois a madrasta não demonstra carinho, e sim hostilidade.
Assuntos: interpretação de texto literário, metáfora e simbolismo.
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