Questão 101 do ENEM PPL 2015
E: Diva ... tem algumas ... alguma experiência pessoal que você passou e que você poderia me contar ... alguma coisa que marcou você? Uma experiência ... você poderia contar agora ...
I: É ... tem uma que eu vivi quando eu estudava o terceiro ano científico lá no Atheneu ... né ... é:: eu gostava muito do laboratório de química ... eu ... eu ia ajudar os professores a limpar aquele material todo ... aqueles vidros ... eu achava aquilo fantástico ... aquele monte de coisa ... né ... então ... todos os dias eu ia ... quando terminavam as aulas eu ajudava o professor a limpar o laboratório ... nesse dia não houve aula e o professor me chamou pra fazer uma limpeza geral no laboratório ... chegando lá ... ele me fez uma experiência ... ele me mostrou uma coisa bem interessante que ... pegou um béquer com meio d’água e colocou um pouquinho de cloreto de sódio pastoso ... então foi aquele fogaréu desfilando ... aquele fogaréu ... quando o professor saiu ... eu chamei umas duas colegas minhas pra mostrar a experiência que eu tinha achado fantástico ... só que ... eu achei o seguinte ... se o professor colocou um pouquinho ... foi aquele desfile ... imagine se eu colocasse mais ... peguei o mesmo béquer ... coloquei uma colher ... uma colher de cloreto de sódio ... foi um fogaréu tão grande ... foi uma explosão ... quebrou todo o material que estava exposto em cima da mesa ... eu branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse morrer sabe ... quando ... o colégio inteiro correu pro laboratório pra ver o que tinha sido ...
CUNHA, M. A. F. (Org.) . Corpus discurso & gramática: a língua falada e escrita na cidade de Natal. Natal: EdUFRN, 1998.
Na transcrição de fala, especialmente, no trecho “eu branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse morrer sabe...”, há uma estrutura sintática fragmentada, embora facilmente interpretável. Sua presença na fala revela
- Adistração e poucos anos de escolaridade.
- Bfalta de coesão e coerência na apresentação das ideias.
- Cafeto e amizade entre os participantes da conversação.
- Ddesconhecimento das regras de sintaxe da norma padrão.
- Ecaracterística do planejamento e execução simultânea desse discurso.
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Resolução comentada
O texto é a transcrição de uma entrevista oral, em que a entrevistada conta uma experiência de forma espontânea. Na fala, o planejamento e a execução acontecem ao mesmo tempo: a pessoa pensa, escolhe as palavras e fala, tudo junto. Por isso surgem pausas (as reticências), hesitações, repetições ("eu ... eu"), interrupções e frases que começam de um jeito e terminam de outro.
No trecho "eu branca ... eu fiquei ... olha ... eu pensei que eu fosse morrer sabe", a falante começa com "eu branca", reformula com "eu fiquei", intercala "olha" e "sabe" para chamar a atenção do ouvinte e segue com a ideia principal. A estrutura é fragmentada, mas o sentido é perfeitamente compreensível: ela sentiu muito medo e vergonha depois da explosão.
Isso mostra que a fragmentação não é erro nem falta de conhecimento. É uma marca normal da língua falada, que é produzida em tempo real, sem revisão como a escrita.
Assim, a resposta é a que relaciona a estrutura fragmentada ao planejamento e à execução simultâneos do discurso.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAssocia a fragmentação à distração e à pouca escolaridade, mas a falante cursava o terceiro ano científico e essas marcas são comuns a qualquer falante.
- BO trecho é coerente e compreensível; a fragmentação não quebra a coesão nem a coerência do relato.
- CAs marcas de fragmentação não indicam afeto ou amizade entre os interlocutores, que é uma relação de entrevista.
- DConfunde marca de oralidade com desconhecimento da norma padrão, o que não se aplica a uma fala espontânea.
Assuntos: língua falada, oralidade, sintaxe.
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