PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 129 do ENEM PPL 2014

2º dia · Linguagens, Códigos · Português: Oralidade e escrita

Eu vô transmiti po sinhô logo uma passage muito importante, qu’ eu iscutei um velho de nome Ricardo Caetano Alves, que era neto do propietário da Fazenda do Buraca. O pai dele, ele contava que o pai dele assistiu uma cena muito importante aonde ele tava, do Jacarandá, o chefe dos iscravo do Joaquim de Paula, com o chefe dos iscravo do Vidigal, que chamava, era tratado Pai Urubu. O Jacarandá era tratado Jacarandá purque ele era um negro mais vermelho, tá intendeno com’ é que é, né? Intão é uma imitância de cerno de Jacarandá, intão eles apilidaro ele de Pai Jacarandá. Agora, o Pai Urubu, diz que era o mais preto de todos os iscravo que era cunhicido nessa época. Intão ele ficô com o nome Pai Urubu. É quem dirigia, de toda confiança dos sinhores. Intão os sinhores cunhiciam eles como “pai”: Pai Urubu, Pai Jacarandá, Pai Francisco, que é o chefe da Fazenda das Abóbra, Pai Dumingo, que era da Fazenda do Buraca.

SOUZA, J. Negros pelo vale. Belo Horizonte: Fale-UFMG, 2009.

O texto é uma transcrição da narrativa oral contada por Pedro Braga, antigo morador do povoado Vau, de Diamantina (MG). Com base no registro da fala do narrador, entende-se que seu relato

  1. A
    perpetua a memória e os saberes dos antepassados.
  2. B
    constrói uma voz dissonante da identidade nacional.
  3. C
    demonstra uma visão distanciada da cultura negra.
  4. D
    revela uma visão unilateral dos fazendeiros.
  5. E
    transmite pouca experiência e sabedoria.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

O texto transcreve a fala de um morador antigo de uma comunidade, que conta o que ouviu de um velho, que por sua vez ouviu do pai, testemunha dos fatos. Ou seja, há uma cadeia de transmissão oral: o narrador repassa algo que recebeu de gerações anteriores.

A própria abertura mostra isso: "Eu vô transmiti po sinhô logo uma passage muito importante, qu' eu iscutei um velho...". Ele reconhece o valor do que conta e o passa adiante.

O conteúdo também é de memória coletiva: explica a origem dos apelidos (Jacarandá, pela cor avermelhada; Urubu, pela cor mais escura) e o título de "pai" dado aos chefes dos escravizados nas fazendas. São saberes locais preservados pela oralidade.

As demais leituras não se sustentam:

  1. O narrador não se distancia da cultura negra: ele conta com detalhe e respeito a história de lideranças negras.
  2. Não há voz contrária à identidade nacional, e sim registro de parte da memória do país.
  3. Não há visão unilateral dos fazendeiros: o foco está nos chefes dos escravizados.
  4. O relato revela muita experiência, pois reúne histórias de várias gerações.

Portanto, o relato mantém viva a memória e os saberes dos antepassados.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO relato registra a memória de uma comunidade brasileira, parte da identidade nacional, e não uma voz dissonante dela.
  • CO narrador mostra proximidade e conhecimento da cultura negra, contando a história de suas lideranças.
  • DO foco são os chefes dos escravizados, não o ponto de vista dos fazendeiros.
  • EO texto traz muita experiência e sabedoria, vindas de várias gerações de transmissão oral.

Assunto: Oralidade e escrita.

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