Questão 128 do ENEM PPL 2014

2º dia · Linguagens, Códigos

Há o hipotrélico. O termo é novo, de impensada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou talvez, vice-dito: indivíduo pedante, importuno agudo, falta de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.

ROSA, G. Tutameia: terceiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (fragmento).

Nesse trecho de uma obra de Guimarães Rosa, depreende-se a predominância de uma das funções da linguagem, identificada como

  1. A
    metalinguística, pois o trecho tem como propósito essencial usar a língua portuguesa para explicar a própria língua, por isso a utilização de vários sinônimos e definições.
  2. B
    referencial, pois o trecho tem como principal objetivo discorrer sobre um fato que não diz respeito ao escritor ou ao leitor, por isso o predomínio da terceira pessoa.
  3. C
    fática, pois o trecho apresenta clara tentativa de estabelecimento de conexão com o leitor, por isso o emprego dos termos “sabe-se lá” e “tome-se hipotrélico”.
  4. D
    poética, pois o trecho trata da criação de palavras novas, necessária para textos em prosa, por isso o emprego de “hipotrélico”.
  5. E
    expressiva, pois o trecho tem como meta mostrar a subjetividade do autor, por isso o uso do advérbio de dúvida “talvez”.
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Resolução comentada

A função da linguagem que predomina é a que se volta para o código. Na função metalinguística, a linguagem fala da própria linguagem: define palavras, explica termos, comenta a língua.

É isso que o trecho faz, passo a passo:

  1. O narrador apresenta uma palavra nova, "hipotrélico", e diz que ela ainda não tem "definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado".
  2. Tenta defini-la com vários termos: "antipodático, sengraçante imprizido", "indivíduo pedante, importuno agudo".
  3. Comenta a origem do termo ("vem do bom português") e o fato de ser um neologismo.

Ou seja, o texto usa a língua para explicar uma palavra da própria língua, com sinônimos e tentativas de definição. Isso é metalinguagem.

As demais alternativas falham: o foco não está em um fato externo (referencial), não há busca de contato com o leitor (fática), o objetivo não é a subjetividade do autor (expressiva) e a alternativa D justifica a função poética com um argumento sem sustentação no texto.

Alternativa A.

Pegadinha: A alternativa C engana ao citar "sabe-se lá", expressão que não está no texto, e ao confundir o verbo impessoal "tome-se" com tentativa de contato com o leitor.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO assunto é a própria palavra, não um fato externo; a terceira pessoa não basta para caracterizar a função referencial.
  • CA expressão "sabe-se lá" não aparece no texto (o trecho traz "sabe-se, só") e não há foco em checar o canal de comunicação.
  • DO foco é definir a palavra, não o trabalho estético da mensagem; a justificativa sobre prosa é inventada.
  • EO advérbio "talvez" indica hesitação na definição, não expressão dos sentimentos do autor.

Assuntos: funções da linguagem, metalinguagem.

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