Questão 108 do ENEM PPL 2014
O Jornal do Commércio deu um brado esta semana contra as casas que vendem drogas para curar a gente, acusando-as de as vender para outros fins menos humanos. Citou os envenenamentos que tem havido na cidade, mas esqueceu de dizer, ou não acentuou bem, que são produzidos por engano das pessoas que manipulam os remédios. Um pouco mais de cuidado, um pouco menos de distração ou de ignorância, evitarão males futuros. Mas todo ofício tem uma aprendizagem, e não há benefício humano que não custe mais ou menos duras agonias. Cães, coelhos e outros animais são vítimas de estudos que lhes não aproveitam, e sim aos homens; por que não serão alguns destes, vítimas do que há de aproveitar aos contemporâneos e vindouros? Há um argumento que desfaz em parte todos esses ataques às boticas; é que o homem é em si mesmo um laboratório. Que fundamento jurídico haverá para impedir que eu manipule e venda duas drogas perigosas? Se elas matarem, o prejudicado que exija de mim a indenização que entender; se não matarem, nem curarem, é um acidente e um bom acidente, porque a vida fica.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1967 (fragmento).
No gênero crônica, Machado de Assis legou inestimável contribuição para o conhecimento do contexto social de seu tempo e seus hábitos culturais. O fragmento destacado comprova que o escritor avalia o(a)
- Amanipulação inconsequente dos remédios pela população.
- Buso de animais em testes com remédios desconhecidos.
- Cfato de as drogas manipuladas não terem eficácia garantida.
- Dhábito coletivo de experimentar drogas com objetivos terapêuticos.
- Eausência de normas jurídicas para regulamentar a venda nas boticas.
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Resolução comentada
O texto é uma crônica irônica. Machado comenta uma reportagem do Jornal do Commércio que atacava as boticas (farmácias de manipulação) por venderem drogas com "fins menos humanos". Ele responde a essa acusação.
Veja os passos do raciocínio:
- Ele diz que os envenenamentos ocorrem "por engano das pessoas que manipulam os remédios", ou seja, por falta de cuidado e por distração ou ignorância. O problema, para ele, está em quem manipula, e não na intenção de matar.
- Depois afirma que "todo ofício tem uma aprendizagem" e que o progresso custa "duras agonias". Compara as vítimas humanas às dos animais usados em estudos. É ironia: ele finge naturalizar os erros.
- Por fim, pergunta que fundamento jurídico impediria alguém de manipular e vender drogas perigosas, e diz que, se matarem, o prejudicado que peça indenização. Isso ironiza a falta de controle.
O ponto central é que ele avalia a manipulação de remédios feita sem cuidado, com erros que causam mortes. Note que a crítica recai sobre quem manipula, população leiga ou boticários despreparados, e as mortes por erro são o fato de que ele parte.
As demais alternativas tratam de aspectos laterais: os animais são só um termo de comparação, e a eficácia e a lei aparecem como ironia, não como objeto principal da avaliação.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Bos animais entram só como comparação irônica, não são o tema avaliado.
- Ca falta de eficácia é mencionada de passagem ("nem curarem"), não é o foco da crônica.
- Do texto não trata de um hábito coletivo de automedicação terapêutica.
- Ea pergunta sobre fundamento jurídico é ironia, não uma avaliação séria sobre ausência de normas.
Assuntos: interpretação de texto, crônica machadiana, ironia.
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