Questão 115 do ENEM PPL 2013

2º dia · Linguagens, Códigos

Grupo escolar

Sonhei com um general de ombros largos
que fedia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resistência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu para ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que desvela e me repõe
nestes tempos de alquimia.

BRITO, A. C. In: HOLLANDA, H. B. (Org.). 26 Poetas Hoje: antologia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

O poema de Antônio Carlos Brito está historicamente inserido no período da ditadura militar no Brasil. A forma encontrada pelo eu lírico para expressar poeticamente esse momento demonstra que

  1. A
    a ênfase na força dos militares não é afetada por aspectos negativos, como o mau cheiro atribuído ao general.
  2. B
    a descrição quase geométrica da aparência física do general expõe a rigidez e a racionalidade do governo.
  3. C
    a constituição de dinastias ao longo da história parece não fazer diferença no presente em que o tempo evapora.
  4. D
    a possibilidade de resistir está dada na renovação e transformação proposta pela poesia, química que desvela e repõe.
  5. E
    a resistência não seria possível, uma vez que as vítimas, representadas pelos pássaros, pensavam apenas nas próprias penas.
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Resolução comentada

O poema, de Cacaso (Antônio Carlos de Brito), foi escrito durante a ditadura militar. Nele, o eu lírico sonha com um general autoritário, de "ombros largos", que "fedia" e que lhe "apontava a poesia", como se impusesse o que ela deveria ser. Mesmo assim, o eu lírico "já sem resistência resistia": a poesia continua sendo forma de resistência.

No final, ele fixa a imagem da poesia como "esta química perversa, este arco que desvela e me repõe". Ou seja, a poesia revela (desvela) a realidade opressora e devolve o sujeito a si mesmo, transformando esses "tempos de alquimia".

Agora, as alternativas:

  1. O mau cheiro do general é uma crítica ao poder, e não algo que deixe intacta a força dele. Isso elimina A.
  2. A descrição geométrica ("queixo modelado a esquadria") é verdadeira, mas o eu lírico vê o general com olhos que tremem, ou seja, com fragilidade, e não com racionalidade. Isso enfraquece B.
  3. O tempo que "evapora" a dinastia sugere a transitoriedade do poder. Ele não é indiferente, como diz C.
  4. O pássaro que pensa suas penas não simboliza vítimas egoístas, e o verso "resistia" nega que a resistência seja impossível. Isso elimina E.

A única leitura coerente com o texto é a de que a poesia, ao desvelar e repor, oferece a possibilidade de resistência.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO mau cheiro do general é uma crítica ao poder, que assim é degradado, e não preservado.
  • BOs olhos que tremem mostram fragilidade do general, não racionalidade; a descrição geométrica não sustenta a tese do governo racional.
  • CO tempo que evapora a dinastia indica a transitoriedade do poder, e não indiferença ao presente.
  • EO poema afirma "já sem resistência resistia"; o pássaro não simboliza vítimas egoístas e a resistência é possível.

Assuntos: interpretação de poema, poesia e ditadura militar, literatura brasileira contemporânea.

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