PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 4 (CFS 2) da EEAR 2018
Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 2
Quem casa quer casa
Num tempo em que se casava depois de namorar e noivar, viajei com meu marido para a minha primeira casa, no mesmo dia do meu casamento. Partia na verdade para um reino onde, tendo modos à mesa e usando meia fina, seria uma mulher distinta como Dona Alice e seu marido saindo para a missa das dez. Pois sim, meu enxoval (...) foi despachado com zelo pela via férrea para uma cidade longe, tão longe que não pude eu mesma escolher casa e coisas. Como você quer nossos móveis?, havia perguntado meu noivo. Ah, eu disse, você pode escolher, mas gosto mesmo é daqueles escuros, pretos. Pensava na maravilhosa cristaleira de Dona Cecília, móveis de pernas torneadas e brilhantes, cama de cabeceira alta. Para a cozinha achei melhor nem sugerir, apostando na surpresa. Você pode cuidar de tudo, respondi a meu noivo atrapalhado com as providências, os poucos dias de folga na empresa, sozinho (...). Foi abrir a porta de nossa casa com alpendre e levei o primeiro susto de muitos de minha vida de casada. A mobília – palavra que sempre detestei – era daquele amarelo bonito de peroba. Tem pouco uso, disse meu marido, comprei de um colega que se mudou daqui. Gostei da cristaleira, seus espelhos multiplicando o ‘jogo de porcelana’ – que invenção! A cama era feia, egressa de um outro desenho, sem nada a ver com a sala. E a cozinha? O mesmo fogão a lenha que desde menina me encarvoara. O fogão a gás vem em duas semanas, explicou meu marido com mortificada delicadeza, adivinhando o borbotão de lágrimas. Mas o banheiro, este sim amei à primeira vista, azulejos, louça branca e um boxe com cortina amarela desenhada em peixes e algas. Recompensou-me. Faz quarenta anos desde minha apresentação a este meu primeiro banheiro com cortina, a um piso que se limpava com sapóleo, palavra que incorporei incontinente ao meu novo status. Vinha de uma casa com panelas de ferro que só brilhavam a poder de areia. (...) Quando me viu a pique de chorar, meu marido me disse naquele dia: quando puder, vou comprar móveis pretos e torneados pra você. Compreendi, com grande sorte para mim, que era melhor escutar aquela promessa ardente ao ouvido, que ter móveis bonitos e marido desatento. Do viçoso jardim arranquei quase tudo para ‘plantar do meu jeito’, tentativa de construir um lar, esperança que até hoje guardo e pela qual me empenho como se tivesse acabado de me casar.
Adélia Prado
https://cronicasurbanas/wordpress/tag/adelia-prado
VOCABULÁRIO
alpendre: varanda coberta
borbotão: caudal; jorro; jato forte, em grande quantidade
egressa: afastada; retirada, que não pertence a um grupo
encarvoara: sujara de carvão
incontinente: que ou quem não se contém, sem moderação
viçoso: que cresce e se desenvolve com vigor
As questões de 01 a 04 referem-se ao texto anterior.
– “Do viçoso jardim arranquei quase tudo para ‘plantar do meu jeito’, tentativa de construir um lar, esperança que até hoje guardo e pela qual me empenho como se tivesse acabado de me casar.” Do sentido da frase final do texto, depreende-se, de forma incorreta, que
- Ao cuidado com o jardim representa o mesmo esforço e empenho necessários à edificação do lar, que se constrói com a constante renovação dos laços matrimoniais.
- Ba esperança de que fala a esposa não se refere à certeza de um lar ainda por realizar, mas à de que, em favor de sua construção e manutenção, o melhor está sempre por vir.
- Ca reconstrução do jardim é a forma de a esposa iniciar seu processo de identificação com o espaço que passaria a caracterizar sua vida e com a nova condição de si mesma.
- Da esposa faz do jardim sua válvula de escape como forma de compensar o controle de suas emoções e a desilusão por um sonho não realizado há décadas: o de construir um lar.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
A questão pede a alternativa incorreta, isto é, a que não pode ser deduzida da frase final.
Na frase, a narradora arranca quase tudo do jardim para "plantar do meu jeito". Isso é uma tentativa de construir um lar, e ela diz que mantém essa esperança "até hoje", com o empenho de quem acabou de se casar. Ou seja, o lar é um projeto contínuo, renovado ao longo de quarenta anos.
Veja cada alternativa:
- A: o jardim como esforço equivalente ao de edificar o lar, com renovação constante. Isso é coerente com "me empenho como se tivesse acabado de me casar".
- B: a esperança não é de um lar pronto, mas de que o melhor ainda virá. Isso combina com o empenho que continua e com o "até hoje".
- C: mexer no jardim é um modo de se identificar com o novo espaço e com a nova condição de esposa. Isso combina com o "do meu jeito" e com o status que ela incorporou.
- D: afirma que o jardim é "válvula de escape" para a desilusão por um sonho "não realizado há décadas". O texto não diz isso. A narradora fala em esperança viva e em empenho atual, não em frustração. A decepção com a mobília foi pontual e compensada pela promessa do marido e pelo banheiro. Ela também não diz que controla emoções: chora diante do marido.
Portanto, a D atribui à personagem uma desilusão que o texto contradiz.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa D engana porque parece plausível, mas troca a esperança e o empenho da narradora por desilusão e frustração, que o texto não afirma.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AÉ dedutível: o empenho com o jardim equivale ao esforço contínuo de renovar o lar, como no trecho "como se tivesse acabado de me casar".
- BÉ dedutível: a esperança é de um lar em construção permanente, em que o melhor ainda está por vir.
- CÉ dedutível: plantar "do meu jeito" é o modo de ela se apropriar do espaço e da nova condição de casada.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: EEAR 2018 · CFS 2. Prova oficial ↗