PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 3 (CFS 2) da EEAR 2018
Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 2
Quem casa quer casa
Num tempo em que se casava depois de namorar e noivar, viajei com meu marido para a minha primeira casa, no mesmo dia do meu casamento. Partia na verdade para um reino onde, tendo modos à mesa e usando meia fina, seria uma mulher distinta como Dona Alice e seu marido saindo para a missa das dez. Pois sim, meu enxoval (...) foi despachado com zelo pela via férrea para uma cidade longe, tão longe que não pude eu mesma escolher casa e coisas. Como você quer nossos móveis?, havia perguntado meu noivo. Ah, eu disse, você pode escolher, mas gosto mesmo é daqueles escuros, pretos. Pensava na maravilhosa cristaleira de Dona Cecília, móveis de pernas torneadas e brilhantes, cama de cabeceira alta. Para a cozinha achei melhor nem sugerir, apostando na surpresa. Você pode cuidar de tudo, respondi a meu noivo atrapalhado com as providências, os poucos dias de folga na empresa, sozinho (...). Foi abrir a porta de nossa casa com alpendre e levei o primeiro susto de muitos de minha vida de casada. A mobília – palavra que sempre detestei – era daquele amarelo bonito de peroba. Tem pouco uso, disse meu marido, comprei de um colega que se mudou daqui. Gostei da cristaleira, seus espelhos multiplicando o ‘jogo de porcelana’ – que invenção! A cama era feia, egressa de um outro desenho, sem nada a ver com a sala. E a cozinha? O mesmo fogão a lenha que desde menina me encarvoara. O fogão a gás vem em duas semanas, explicou meu marido com mortificada delicadeza, adivinhando o borbotão de lágrimas. Mas o banheiro, este sim amei à primeira vista, azulejos, louça branca e um boxe com cortina amarela desenhada em peixes e algas. Recompensou-me. Faz quarenta anos desde minha apresentação a este meu primeiro banheiro com cortina, a um piso que se limpava com sapóleo, palavra que incorporei incontinente ao meu novo status. Vinha de uma casa com panelas de ferro que só brilhavam a poder de areia. (...) Quando me viu a pique de chorar, meu marido me disse naquele dia: quando puder, vou comprar móveis pretos e torneados pra você. Compreendi, com grande sorte para mim, que era melhor escutar aquela promessa ardente ao ouvido, que ter móveis bonitos e marido desatento. Do viçoso jardim arranquei quase tudo para ‘plantar do meu jeito’, tentativa de construir um lar, esperança que até hoje guardo e pela qual me empenho como se tivesse acabado de me casar.
Adélia Prado
https://cronicasurbanas/wordpress/tag/adelia-prado
VOCABULÁRIO
alpendre: varanda coberta
borbotão: caudal; jorro; jato forte, em grande quantidade
egressa: afastada; retirada, que não pertence a um grupo
encarvoara: sujara de carvão
incontinente: que ou quem não se contém, sem moderação
viçoso: que cresce e se desenvolve com vigor
As questões de 01 a 04 referem-se ao texto anterior.
– No que se refere ao texto, é correto afirmar que
- Aa esposa conteve sua irremediável vontade de chorar em razão da mortificada delicadeza do esposo de justificar os objetos da casa e da feliz descoberta de que este, em sua promessa ardente, não se esquecera de seus desejos.
- Bo primeiro susto da esposa – o de uma mobília sem beleza e a visão de um fogão a lenha – e o destaque para os muitos outros que ainda viriam revelam uma mulher frustrada, que escreve como forma de desabafo.
- Ca necessidade de comandar as tarefas domésticas, como a de lavar o piso do banheiro com sapóleo, mostra que o tipo de vida da esposa regredira em relação à vida na casa materna.
- Do marido não se esforçou por realizar os pedidos de sua esposa, mas lhe ofereceu uma promessa ardente, que, por quarenta anos, ela esperava que se cumprisse.
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Resolução comentada
Vamos testar cada alternativa contra o que o texto diz.
A narradora, recém-casada, enfrenta uma casa diferente da sonhada: mobília amarela de peroba, cama feia, fogão a lenha. O marido, "com mortificada delicadeza", explica que o fogão a gás virá em duas semanas e promete: "quando puder, vou comprar móveis pretos e torneados pra você". Ela conclui que era melhor ouvir essa promessa ardente do que ter móveis bonitos e marido desatento.
- A: o texto diz que ela estava "a pique de chorar" e que o marido adivinhou o "borbotão de lágrimas". Ele lembrou o que ela havia dito querer (móveis pretos e torneados) e prometeu realizá-los. Ela compreendeu isso como sinal de atenção, o que a consola. A alternativa une corretamente a delicadeza do marido ao reconhecimento de que ele não esquecera seus desejos.
- B: o tom do relato é afetuoso e bem-humorado, não de desabafo; ela mesma fala em "grande sorte" e esperança.
- C: o texto mostra avanço, não regressão: o banheiro com cortina e piso de sapóleo é um "novo status", comparado às panelas areadas da casa materna. Além disso, a esposa nem "comanda" tarefas.
- D: o marido se esforçou, pois comprou a mobília, deu explicações e prometeu. Ela não espera há quarenta anos a promessa; esse é o tempo desde a primeira casa.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BInterpreta o texto como desabafo de mulher frustrada, mas o tom é afetuoso e esperançoso, sem frustração duradoura.
- CInverte o sentido: o banheiro e o sapóleo representam ascensão ("novo status") em relação à casa materna.
- DAfirma que o marido não se esforçou, o que contraria o texto; os quarenta anos são o tempo desde a primeira casa, não de espera pela promessa.
Assunto: Tema, ideia central e informações explícitas.
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Fonte: EEAR 2018 · CFS 2. Prova oficial ↗