PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 11 da UNICAMP 2017

1ª fase · Literatura: Intertextualidade e paródia

“O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra Fulô?

Essa negra Fulô!”

(Jorge de Lima, Poesias Completas, v.1. Rio de Janeiro/Brasília: J.Aguilar e INL, 1974, p. 121.)

“A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes:
Fute, Cafute, Pé-de-pato, Não-sei-que-diga,
avança na branca e me vinga.
Exu escangalha ela, amofina ela,
amuxila ela que eu não tenho defesa de homem,
sou só uma mulher perdida neste mundão.
Neste mundão.
Louvado seja Oxalá.
Para sempre seja louvado.”

(Idem, p.164.)

Essas duas cenas de ciúmes concluem dois textos diferentes de Jorge de Lima. A primeira pertence ao conhecido poema modernista “Essa negra Fulô”; a segunda, ao poema “História”, de Poemas Negros (1947). Em relação a “Essa negra Fulô”, o poema “História”, especificamente, representa

  1. A
    a reiteração da denúncia das relações de poder, muito arraigadas no sistema escravocrata, que colocam no mesmo plano violências raciais e sexuais.
  2. B
    a passagem de uma caracterização da mulher negra como sedutora para uma postura solidária em relação à escrava, que explicita as estratégias compensatórias de que se vale para sobreviver.
  3. C
    a permanência de uma visão pitoresca sobre a situação da mulher negra nos engenhos de açúcar, que oculta os mecanismos de poder que garantiam sua exploração.
  4. D
    a superação da visão idílica da vida na senzala, graças a uma postura realista e social, que revela a violência das relações entre senhores e escravos.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

As duas cenas mostram o ciúme da sinhá diante da escrava, mas o foco muda de um poema para o outro.

Em "Essa negra Fulô", o eu lírico fala pela voz do senhor e da sinhá, em tom irônico e quase anedótico. A escrava aparece como objeto de desejo do Sinhô e como alvo da sinhá, que a acusa de roubar o marido ("Foi você que roubou?"). A violência é narrada com leveza, sem que a voz de Fulô seja ouvida.

Em "História", a sinhá manda "arrebentar-lhe os dentes", ou seja, castiga a escrava por ciúme. Quem fala agora é a própria mulher escravizada, que não tem defesa ("não tenho defesa de homem, sou só uma mulher perdida neste mundão"). Ela recorre às entidades afro-brasileiras (Exu, Oxalá) para se vingar da sinhá. Esse é o recurso compensatório de quem não tem poder: a religiosidade e a magia.

Assim, o segundo poema:

  1. dá voz à mulher negra, em vez de tratá-la como figura sedutora vista de fora;
  2. assume uma postura solidária, que se aproxima de sua dor;
  3. mostra a estratégia simbólica (invocar Exu) de que ela se vale para sobreviver.

Isso corresponde à passagem descrita na alternativa B.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AFala em "reiteração" da denúncia, mas o primeiro poema é irônico e pitoresco; não há continuidade, e sim mudança de perspectiva.
  • CDiz que "História" mantém a visão pitoresca, quando ele justamente a abandona ao dar voz à escrava e expor sua falta de defesa.
  • DAtribui ao primeiro poema uma visão idílica da senzala, o que não procede, e ignora o ponto central, a voz e as estratégias de sobrevivência da mulher negra.

Assuntos: Intertextualidade e paródia, Literatura afro-brasileira, indígena e periférica.

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Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2017. Prova oficial ↗