Questão 20 (2º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2023
Nos tempos de George Orwell, como ilustra seu romance 1984, publicado em 1949, era possível conceber o Poder como um “Grande Irmão” que monitorava cada gesto de cada um de seus súditos. No contexto contemporâneo, em uma sociedade pautada na vigilância e no controle social, o Big Brother televisivo é uma caricatura do Grande Irmão, porque neste programa o público pode monitorar o que acontece com um pequeno grupo que se reúne justamente para se exibir. No entanto, aquilo que, no tempo de Orwell, era apenas profecia parece ter se realizado, pois o Poder pode monitorar cada movimento dos sujeitos através de seu telefone celular; cada transação realizada, hotel visitado, autoestrada percorrida através de seu cartão de crédito.
(Adaptado de ECO, U. Construir o inimigo e outros escritos ocasionais. Rio de Janeiro: Editora Record: 2021, p. 233.)
No romance 1984, Orwell descreve as vigilâncias implementadas por um imaginado Estado Totalitário. A partir desta informação e do excerto acima,
a) aponte e explique dois aspectos do Poder do “Grande Irmão”, imaginado por Orwell, diferenciando-os de dois aspectos correlatos na sociedade de vigilância do mundo contemporâneo.
b) cite e explique dois aspectos importantes do debate ético sobre os dados de usuários de plataformas digitais por parte das grandes corporações.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) No romance 1984, o Poder é o do Estado totalitário, e Orwell o imagina assim:
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Centralização estatal e personificação: o poder é concentrado no Partido e personificado no "Grande Irmão". A vigilância é feita pelo Estado, por meio de teletelas, polícia do pensamento e delação, e não é escolhida pelo indivíduo. Hoje ela é descentralizada: além dos governos, atuam empresas privadas (operadoras, bancos, plataformas, big techs), sem um centro único e visível.
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Coerção e repressão explícitas: em Orwell, a vigilância serve para reprimir, punir e impor a obediência e a ideologia oficial (propaganda, reescrita da história, "crime de pensamento"). Hoje o controle é, em grande parte, voluntário e consentido: o usuário fornece seus dados ao usar celular, cartão de crédito e redes sociais, e muitas vezes se exibe por conta própria, como no Big Brother televisivo, de modo que a vigilância vem acompanhada de conveniência e de consumo, sem terror declarado.
Portanto, o excerto mostra que o que era profecia se realizou tecnicamente, mas com outros agentes (o mercado, além do Estado) e outros meios (adesão, e não imposição).
Resposta: Orwell imagina um poder estatal centralizado e repressivo, enquanto hoje a vigilância é difusa, com forte participação de empresas, e exercida em boa medida com a adesão dos próprios usuários.
b) O debate ético sobre dados de usuários tem, entre outros, estes aspectos:
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Privacidade e consentimento: as empresas coletam, armazenam e cruzam dados de localização, consumo, buscas e relações sociais, muitas vezes com termos de uso longos e pouco claros. Questiona-se se o consentimento é de fato informado e se há direito de saber, corrigir e apagar os dados, como prevê a LGPD no Brasil.
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Uso comercial e manipulação: os dados são transformados em mercadoria (publicidade direcionada, venda a terceiros) e usados para influenciar comportamentos, escolhas de consumo e até opiniões políticas, como no caso Cambridge Analytica. Isso levanta questões de assimetria de poder entre corporações e indivíduos, de discriminação por algoritmos, de vazamentos e de responsabilização das empresas.
Resposta: os principais aspectos são a violação da privacidade sem consentimento informado e a mercantilização e manipulação dos dados pelas corporações, com risco de abuso de poder.
Assuntos: vigilância e controle social, totalitarismo (Orwell, 1984), ética e dados digitais.
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