Questão 18 (2º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2023

2º dia · História

O compositor de música clássica Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em Salzburg, na Áustria, em 1756. Era de origem burguesa modesta. Com três anos, começou a aprender tocar piano e, aos cinco, já havia escrito um concerto para cravo. Mozart faleceu em 1791, aos 35 anos, e foi enterrado numa vala comum. O compositor tinha consciência de seu raro dom e deixou em torno de 600 obras. Durante boa parte de sua vida, trabalhou incansavelmente, mas não encontrou o reconhecimento que desejava, especialmente na corte de Viena. O destino de Mozart foi muito marcado por sua situação social, pois havia uma dependência do músico com relação à aristocracia da corte. Nela, a nobreza estabelecia o padrão para os artistas de todas as origens sociais. Ao analisar sua vida, é preciso ser capaz de traçar um quadro claro das pressões sociais que agem sobre o indivíduo.

(Adaptado de: ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.)

A partir do excerto e de seus conhecimentos, responda:

a) Considerando o valor social do artista e as pressões sociais da época, explique por que seria anacrônico afirmar que Mozart era percebido como gênio naquele contexto histórico (1756-1791).

b) Explique o ideário de meritocracia na ordem social burguesa do século XIX e o diferencie dos princípios de estratificação social do Antigo Regime.

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a) Falar em "gênio" para Mozart é projetar sobre o século XVIII uma ideia que só se firma depois, com o Romantismo. Entre 1756 e 1791, o músico era visto como artesão a serviço de patronos. Dependia da aristocracia da corte, que encomendava obras, pagava e definia o gosto e o padrão estético, como diz o excerto. O valor do artista era medido pela utilidade e pela posição social de quem o sustentava, não por uma criatividade individual excepcional.

Mozart, de origem burguesa modesta, ocupava lugar subalterno nessa hierarquia, comparável ao de um criado de luxo. Isso explica a falta de reconhecimento em Viena, a instabilidade financeira e o enterro em vala comum. Só no século XIX, com a valorização do indivíduo criador, da inspiração e do talento inato, ele foi consagrado como gênio. Chamá-lo assim em sua época é, portanto, anacrônico.

Resposta: no século XVIII o artista era tratado como artesão dependente do mecenato aristocrático, e a noção de gênio criador é romântica, posterior à vida de Mozart.

b) Na ordem social burguesa do século XIX, a meritocracia defende que a posição social deve resultar do esforço, do talento, da educação e do trabalho de cada indivíduo. Ela se apoia na igualdade jurídica formal e na livre concorrência, e sustenta que qualquer pessoa pode ascender por mérito próprio. Esse ideário legitima a riqueza burguesa como fruto do trabalho e da capacidade, embora desconsidere desigualdades reais de ponto de partida.

No Antigo Regime, a sociedade era estamental: clero, nobreza e Terceiro Estado. A posição vinha do nascimento, do sangue e de privilégios jurídicos hereditários. A mobilidade era mínima, e o talento de um plebeu, como Mozart, não rompia as barreiras de nascimento. A diferença central está no critério: o nascimento e o privilégio no Antigo Regime, o mérito individual e a igualdade perante a lei na sociedade burguesa.

Resposta: a meritocracia burguesa baseia o status no mérito e no esforço individual; o Antigo Regime o baseava no nascimento e em privilégios estamentais hereditários.

Assuntos: antigo regime e sociedade estamental, meritocracia burguesa, artista e mecenato no século xviii.

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