Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2014
Operário no mar
Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. (...) Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos (...).
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.23.)
a) No trecho citado, o eu lírico se pergunta sobre o destino do operário: “Para onde vai ele, pisando assim tão firme?” Tendo em mente a crítica político-social que estrutura o conjunto do livro, explique a razão da dúvida do eu lírico.
b) No fragmento do poema “Operário no mar”, o eu lírico manifesta os sentimentos de vergonha e de desprezo na sua relação com o operário. Qual é a posição do eu lírico no que diz respeito ao papel do artista como agente de transformação da realidade social?
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) Sentimento do mundo (1940) é um livro de poemas escritos num momento de crise: a ascensão do fascismo, a Segunda Guerra, a desigualdade social e a desumanização do trabalho. O eu lírico, um intelectual de classe média, reconhece que o operário carrega "desígnios e segredos", isto é, uma força histórica potencial. Mas ele não sabe qual será o destino dessa força.
A dúvida tem duas razões. A primeira é que o operário está alienado: a fábrica ficou para trás, ele caminha firme, mas não tem tempo de perceber o que os fios transmitem ("contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos"), ou seja, o mundo, a política, as mensagens que poderiam dar a ele consciência de classe. A segunda é a distância social entre o poeta e o operário: "não nos entenderemos nunca". O poeta não conhece esse homem, tratado em contos e discursos como figura estereotipada (a "blusa azul", as mãos grossas). Por isso não sabe para onde ele vai, nem se esse caminho leva à transformação social.
O eu lírico duvida porque o operário, alienado e separado dele por abismo de classe, não tem consciência do mundo nem de seu papel, e o futuro dessa força social é incerto.
b) Os sentimentos de vergonha e de desprezo mostram um eu lírico que se vê com autocrítica. A vergonha de chamar o operário de "irmão" revela que o poeta reconhece o abismo entre eles e a falsidade de qualquer solidariedade fácil. O desprezo pode ser do operário contra o poeta ("E me despreza...") ou do próprio poeta contra si, que se despreza "a seus olhos": ele se sente inútil e burguês diante de quem trabalha e produz.
Assim, o eu lírico duvida de que o artista possa ser agente de transformação social. O intelectual está distante do povo, não é entendido por ele e fala dele de fora, pelos clichês do conto, do drama e do discurso político. Ele quer participar, tem o "sentimento do mundo", mas reconhece os limites da própria posição: sua arte não alcança o operário nem muda a realidade. Há, portanto, consciência crítica e certa impotência.
O eu lírico assume uma posição cética e autocrítica: o artista, separado do operário por classe e linguagem, quer a transformação social, mas sente-se impotente e culpado por não conseguir agir sobre ela.
Assuntos: Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo, poesia social modernista.
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