Questão 5 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2014

1º dia · Português

Fotografia de uma intervenção urbana em um muro de concreto, onde estão colados três cartazes idênticos com a inscrição "SEGURO MORREU DE TÉDIO" em letras maiúsculas garrafais pretas sobre fundo branco. Ao lado dos cartazes, há um grafite colorido com formas orgânicas nas cores amarela e verde.

(Disponível em coletivotransverso.blogspot.com.br. Acessado em 29/10/2013.)

A intervenção urbana acima reproduzida foi criada pelo Coletivo Transverso, um grupo envolvido com arte urbana e poesia, que afixou cartazes como esses em muros de uma grande cidade.

a) Que outro texto está referido em “SEGURO MORREU DE TÉDIO”?

b) A relação entre os dois textos – o do cartaz e aquele a que ele remete - é importante para a interpretação dessa intervenção urbana? Justifique sua resposta.

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a) A frase remete ao poema "Morte e vida severina", de João Cabral de Melo Neto, ou melhor, ao verso popular "Morreu de morte matada, de morte morrida"? Não: a referência correta é à expressão "morreu de velho" e, sobretudo, ao dito popular "Seguro morreu de velho" ("o seguro morreu de velho"), provérbio que diz que quem é prudente e se previne vive bem e escapa de problemas. O cartaz altera o final do provérbio: "de velho" vira "de tédio".

O texto referido é, portanto, o ditado popular "Seguro morreu de velho".

Resposta: o provérbio "Seguro morreu de velho".

b) Sim, a relação é essencial. O sentido do cartaz nasce da diferença entre os dois textos. O provérbio valoriza a cautela: quem é "seguro" (prudente, que evita riscos) chega à velhice. Ao trocar "velho" por "tédio", o cartaz inverte esse valor: a prudência excessiva não protege, apenas leva a uma vida entediante, sem emoção. O leitor só percebe a crítica se reconhece o provérbio e nota o desvio.

Há ainda um segundo efeito: a palavra "seguro" ganha ambiguidade, pois lembra a segurança (medo da violência, muros, grades) e o seguro como produto contratado. O contexto da rua, um muro com cartazes, ao lado de um grafite colorido e espontâneo, reforça o convite a ocupar o espaço urbano com mais ousadia e menos medo.

Sem o provérbio, a frase seria apenas estranha e sem sentido claro. Com ele, vira uma provocação irônica contra o excesso de cautela.

Resposta: sim; o sentido depende do contraste com o provérbio, pois a troca de "velho" por "tédio" inverte a valorização da prudência e critica uma vida excessivamente segura e monótona.

Assuntos: intertextualidade, provérbio, arte urbana.

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