Questão 18 (2º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2014

2º dia · Ciências Humanas e Artes

“Sabe-se que existe, em toda crise, a emersão de processos que antes permaneciam ocultos por controles institucionais. Algumas identidades sociais não se afirmavam no espaço público quando formas de identificação, mais facilmente aceitas, ocupavam a cena política. A crise, ao destruir certezas, pode encadear outras práticas, possibilitando que identidades antes secundárias orientem a defesa de bandeiras de luta aparentemente ultrapassadas ou, até mesmo, mortas. Exemplificam esta possibilidade os movimentos negro e indígena, na América Latina, e os contextos sociais em que se trava, hoje, a luta em torno do trabalho, envolvendo os desafios da economia popular”.

(Ana Clara Torres Ribeiro, “Leituras de movimentos: conjuntura, ação e poder”, em Por uma sociologia do presente: ação técnica e espaço. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2013, p. 202.)

a) A luta dos movimentos indígenas na América Latina resultou, em boa medida, em avanços políticos significativos. Que contexto social permitiu a eleição do Presidente Evo Morales na Bolívia?

b) Que contexto econômico-social Latino-americano atual tem movido lutas em torno da constituição de economias populares, mais solidárias e menos excludentes?

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Resolução comentada

Resolução comentada

a) A eleição de Evo Morales, em 2005, foi resultado de uma crise do modelo neoliberal adotado na Bolívia a partir dos anos 1980 e 1990, com privatizações (água, gás, petróleo), desemprego e aumento da pobreza e da desigualdade. Isso gerou forte mobilização popular, como a "Guerra da Água" em Cochabamba (2000) e a "Guerra do Gás" (2003), que derrubou o presidente Sánchez de Lozada. Nesse contexto de crise de representação dos partidos tradicionais, ganharam força os movimentos sociais, camponeses (cocaleros), sindicais e sobretudo indígenas, maioria da população boliviana. Eles articularam a identidade étnica à defesa dos recursos naturais e da soberania nacional, e Morales, líder cocalero e aymara, chegou à presidência pelo MAS (Movimento ao Socialismo). Assim, a crise do neoliberalismo deixou aflorar uma identidade antes secundária no espaço político, como diz o texto. Resposta: crise do neoliberalismo (privatizações, pobreza, desigualdade) e mobilizações populares e indígenas, que deslegitimaram as elites políticas tradicionais e levaram Morales ao poder.

b) O contexto é o das consequências das políticas neoliberais e da globalização na América Latina: desindustrialização, desemprego estrutural, precarização e flexibilização do trabalho, informalidade e exclusão social. Diante da incapacidade do mercado formal de absorver a mão de obra, trabalhadores desempregados ou informais passaram a se organizar em cooperativas, empresas recuperadas (como na Argentina após a crise de 2001), feiras, bancos comunitários e redes de comércio justo e de economia solidária. Essas iniciativas buscam gerar renda, autogestão e inclusão, em oposição à lógica excludente do capital. Resposta: desemprego, informalidade e precarização do trabalho, agravados pelo neoliberalismo e pelas crises econômicas, que estimulam cooperativas e a economia solidária.

Assuntos: movimentos indígenas na américa latina, neoliberalismo e crise, economia solidária.

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