Questão 11 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2013
Em uma passagem célebre de Memórias de um sargento de milícias, pode-se ler, a respeito da personagem de Leonardo Pataca, que “o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo”. (Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978, p. 19.)
a) De que maneira a passagem acima explicita o lugar peculiar ocupado pelo livro de Manuel Antônio de Almeida no Romantismo brasileiro?
b) Como essa peculiaridade do livro se manifesta, de maneira geral, na caracterização das personagens e na construção do enredo?
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) A frase mostra um narrador que se coloca em um tempo posterior ao dos fatos narrados (a história se passa no tempo do rei, início do século XIX) e que comenta a linguagem de duas épocas: "romântico, como se diz hoje" e "babão, como se dizia naquele tempo". Ele traduz o sentimentalismo exagerado do Romantismo, tido como moda do presente, por um termo popular, "babão", que o rebaixa e o ridiculariza. Assim, o livro faz parte do Romantismo (é publicado em folhetim, em pleno período romântico, e tem um namoro como fio condutor), mas tem distância irônica em relação aos clichês românticos, sobretudo ao amor idealizado e derramado. Esse tom coloquial, bem-humorado e crítico mostra a posição peculiar da obra: está dentro do Romantismo, mas não adota o idealismo dele. O trecho revela um narrador irônico, que usa a linguagem popular para ridicularizar o sentimentalismo romântico, situando o livro dentro do Romantismo, mas em tensão com ele.
b) Essa peculiaridade aparece, em geral, em personagens e enredo que fogem do idealismo romântico. As personagens não são heróis nem figuras idealizadas: Leonardo, o Major Vidigal, a comadre, o barbeiro, Maria Regalada e o próprio Leonardo filho são tipos populares, ambíguos, movidos por interesses, esperteza e desejos cotidianos. Leonardo filho é um "malandro", e não um herói de virtudes. Até o par amoroso (Leonardo e Luisinha) é pouco idealizado: o amor tem pouca importância, e o enredo vive de peripécias, favores, intrigas, desventuras. O enredo mostra a vida urbana do Rio de Janeiro do tempo do rei, com costumes, festas e a classe média e baixa, sem a grandiosidade de outros romances (indianistas ou históricos). Prevalecem a ironia, a comicidade e a ordem da vida social por meio de favores e relações pessoais (a dialética da ordem e da desordem, como interpretou Antonio Candido), e o final é um acomodamento: o protagonista, ex-malandro, é integrado ao sistema e vira sargento de milícias. As personagens são populares, ambíguas e sem idealização, e o enredo é de aventuras e costumes cômicos, tudo sob ironia, o que afasta o livro dos padrões idealizantes do Romantismo e o aproxima do realismo de costumes, da sátira e do romance picaresco.
Assuntos: memórias de um sargento de milícias, romantismo brasileiro, ironia e narrador.
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