Questão 9 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2012
Os excertos abaixo foram extraídos do Auto da barca do inferno, de Gil Vicente.
(...) FIDALGO: Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO: (...) E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezem lá por ti!...(...)
ANJO: Que querês?
FIDALGO: Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do paraíso
é esta em que navegais.
ANJO: Esta é; que me demandais?
FIDALGO: Que me leixês embarcar.
sô fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
ANJO: Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO: Não sei por que haveis por mal
Que entr'a minha senhoria.
ANJO: Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO: Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia? (...)
ANJO: Não vindes vós de maneira
pera ir neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Vós irês mais espaçoso
com fumosa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso;
e porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso. (…)
SAPATEIRO: (...) E pera onde é a viagem?
DIABO: Pera o lago dos danados.
SAPATEIRO: Os que morrem confessados,
onde têm sua passagem?
DIABO: Nom cures de mais linguagem!
Esta é a tua barca, esta!
(...) E tu morreste excomungado:
não o quiseste dizer.
Esperavas de viver,
calaste dous mil enganos...
tu roubaste bem trint'anos
o povo com teu mester. (...)
SAPATEIRO: Pois digo-te que não quero!
DIABO: Que te pês, hás-de ir, si, si!
SAPATEIRO: Quantas missas eu ouvi,
não me hão elas de prestar?
DIABO: Ouvir missa, então roubar,
é caminho per'aqui.
(Gil Vicente, Auto da barca do inferno, em Cleonice Berardinelli (org.), Antologia do teatro de Gil Vicente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1984, p. 57-59 e 68-69.)
a) Por que razão específica o fidalgo é condenado a seguir na barca do inferno? E o sapateiro?
b) Além das faltas específicas desses personagens, há uma outra, comum a ambos e bastante praticada à época, que Gil Vicente condena. Identifique essa falta e indique de que modo ela aparece em cada um dos personagens.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) O fidalgo é condenado por soberba e tirania: o Anjo diz que ele vai "espaçoso, com fumosa senhoria", "cuidando na tirania do pobre povo queixoso". Por generosidade de fachada, desprezou os pequenos. Quanto mais se julgou importante ("fumoso"), menos vale diante do julgamento divino. Sua arrogância de classe e a opressão dos humildes o impedem de entrar na barca do paraíso.
O sapateiro é condenado por roubar o povo durante cerca de trinta anos no exercício do ofício ("tu roubaste bem trint'anos o povo com teu mester"). Além disso, morreu excomungado, pois não se confessou e calou "dous mil enganos". Fidalgo: soberba e tirania sobre o povo; sapateiro: exploração/roubo dos clientes e falta de confissão.
b) A falta comum é a hipocrisia religiosa, isto é, a crença de que as práticas exteriores da fé (rezas, missas) bastam para a salvação, sem uma vida honesta e sem arrependimento verdadeiro.
No fidalgo, aparece quando ele se consola dizendo que deixou na vida quem reze sempre por ele; o Diabo ironiza que ele viveu a seu prazer esperando que rezassem por ele depois. Ele conta com orações de outros, não com a própria conduta.
No sapateiro, aparece quando pergunta se as missas que ouviu não lhe valerão; o Diabo responde que ouvir missa e depois roubar é o caminho para o inferno. Ele frequentava os ritos, mas continuava a enganar e a lesar o povo. Falta comum: hipocrisia/religiosidade de aparência (confiar em rezas e missas em vez de agir com virtude).
Assuntos: auto da barca do inferno, gil vicente, sátira social e hipocrisia religiosa.
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