PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 10 (2ª fase) da UNESP 2023
Texto-base das questões 07 a 10 · Conhecimentos Específicos
Para responder às questões de 07 a 10, leia o capítulo CXVII do romance Quincas Borba, de Machado de Assis.
A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, — um triste molambo de mulher, — chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
— É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
— Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! — Chamava-se Chagas. — Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, — a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!
(Quincas Borba, 2012.)
“A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la.” (1o parágrafo)
No contexto em que se insere, a oração sublinhada expressa ideia de
- Afinalidade.
- Bconsequência.
- Ccondição.
- Dconcessão.
- Econclusão.
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Resolução comentada
"Posto" aqui é conjunção concessiva, equivalente a "embora", "ainda que", "conquanto". Não é o particípio de "pôr".
A concessão apresenta um fato que, em princípio, iria contra a ideia da oração principal, mas não a impede. Para identificar, troque a conjunção por "embora" e veja se o sentido se mantém:
- Original: "posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la".
- Substituição: "embora Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la".
O sentido é o mesmo. O narrador admite que Sofia acha a história vulgar, e isso poderia desencorajá-lo a contá-la. Mesmo assim, ele diz que vale a pena contá-la. Há, portanto, uma oposição que não impede o fato principal, e isso é concessão.
Outras ideias não se encaixam. Não há finalidade ("para que"), nem consequência ("tanto que"), nem condição ("se Sofia a achar vulgar", que não faria sentido, pois a opinião dela já é um fato). Também não há conclusão ("logo", "portanto"), porque a oração não é deduzida de nada anterior.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa C engana quem lê 'posto' como 'posto que = supondo que' e pensa em hipótese, quando no uso clássico significa 'embora'.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AFinalidade exigiria 'para que'; a oração não indica objetivo, e sim uma opinião de Sofia que não impede o relato.
- BConsequência exigiria um efeito do fato anterior (tipo 'tão... que'); a opinião de Sofia não causa o valer a pena.
- CConfunde 'posto' com 'se'; a opinião de Sofia é fato admitido, não hipótese da qual dependa a principal.
- EConclusão seria 'logo/portanto'; a oração subordinada não deduz nada, apenas faz uma ressalva.
Assuntos: orações subordinadas adverbiais, concessão, conjunções.
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Fonte: UNESP 2023 · Conhecimentos Específicos. Prova oficial ↗