PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 55 da UFPR 2026
O seguinte texto, escrito pelo quilombola Antonio Bispo dos Santos, sobre a cosmovisão de seu povo, é referência para as questões 55 a 58. · 1ª fase
Somos compartilhantes
Quando ouço a palavra confluência ou a palavra compartilhamento pelo mundo, fico muito festivo. Quando ouço troca, entretanto, sempre digo: “Cuidado, não é troca, é compartilhamento”. Porque a troca significa um relógio por um relógio, um objeto por outro objeto, enquanto no compartilhamento temos uma ação por outra ação, um gesto por outro gesto, um afeto por outro afeto. E afetos não se trocam, se compartilham. Quando me relaciono com afeto com alguém, recebo uma recíproca desse afeto. O afeto vai e vem. O compartilhamento é uma coisa que rende. Quando cheguei ao território em que estou hoje, já existiam outros compartilhantes que nos recepcionaram. Na Caatinga, os umbuzeiros nos recepcionaram. Eles compartilharam seus frutos, suas folhas e suas raízes quando chegamos, e não trouxemos nada para os umbuzeiros. Eles já eram nativos daqui, viemos habitar esta terra depois deles. Foi assim com os pássaros, foi assim com uma planta chamada pinhão – que não é o pinhão manso, é um pinhão cuidado por nós, ditos humanos, que as juritis adoram. Elas comem esses pinhões e, vez por outra, pegamos uma juriti. O pinhão compartilha com a juriti, a juriti compartilha conosco, e nós vamos compartilhar de novo com o pinhão. Agora que já estamos aqui há mais tempo, entramos também no ciclo local de compartilhamento.
Santos, A. B. dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023, p. 21.
Sobre a perspectiva apresentada pelo quilombola Antonio Bispo dos Santos, é correto afirmar:
- AOs humanos têm ascendência sobre animais e vegetais na relação de compartilhamento.
- BA troca e a partilha são práticas apresentadas pelo autor do texto em uma relação de convergência entre si.
- CHá duas visões de mundo, as quais implicam reciprocidade, porém, regidas por princípios distintos.
- DOs ciclos de compartilhamento caracterizam-se pela descontinuidade.
- EA prática de compartilhamento é análoga às práticas de ordem econômica, visto que é positiva e rentável.
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Resolução comentada
O autor opõe dois conceitos: troca (objeto por objeto, como "um relógio por um relógio") e compartilhamento (ação por ação, gesto por gesto, afeto por afeto). Ele insiste: "Cuidado, não é troca, é compartilhamento". Assim, há duas lógicas distintas, e ambas envolvem retorno de algo dado, isto é, reciprocidade.
A diferença está no princípio: a troca é regida pela equivalência de coisas materiais; o compartilhamento, pelo afeto e pela relação que "vai e vem" e "rende".
Confira as alternativas:
- Os humanos não estão acima dos demais seres. Os umbuzeiros recepcionam o autor, e ele diz que "não trouxemos nada" para eles; o ciclo inclui pinhão, juriti e humanos, em circularidade.
- Troca e partilha são apresentadas em contraste, não em convergência.
- O ciclo "pinhão → juriti → nós → pinhão" é contínuo, não descontínuo.
- "Rende" não tem sentido econômico: o autor fala de afeto, não de lucro, e justamente rejeita a lógica da troca.
A única que descreve corretamente o texto é a que reconhece duas visões, ambas com reciprocidade, mas com princípios diferentes.
Alternativa C.
Pegadinha: A alternativa E engana ao tomar o verbo "rende" em sentido econômico, quando o autor fala de afeto e reciprocidade, não de lucro.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto mostra os humanos recebendo dos umbuzeiros e entrando num ciclo local, sem hierarquia sobre animais e plantas.
- BO autor contrapõe troca e compartilhamento ("não é troca, é compartilhamento"), não os aproxima.
- DO ciclo pinhão–juriti–humanos–pinhão é contínuo e circular, não descontínuo.
- EConfunde o "rende" do afeto com rentabilidade econômica, lógica que o autor associa à troca e rejeita.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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Fonte: UFPR 2026 · 1ª fase. Prova oficial ↗