PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 59 da UFPR 2024

1ª fase

O texto a seguir é referência para as questões 57 a 59. · 1ª fase

[...] O Brasil linguístico que vigorou até meados do século XVIII, no qual as línguas gerais ocupavam um espaço definitivo e se difundiam rumo ao sertão a partir de dois grandes núcleos, Amazônia e entorno de São Paulo, acabou sendo substituído por um espraiamento do português vinculado diretamente ao Nordeste, à lavoura que se servia da mão de obra escrava, aos negros africanos. Nessa situação, fica nítido que eles teriam sido a linha de frente da real lusitanização do território, ao mesmo tempo que iam transformando a língua aprendida numa coisa efetivamente nova, depois levada para outros pontos do país à medida que os ciclos econômicos se sucediam, cada um com seu centro num ponto diferente do território.

Se é para pensarmos no português brasileiro como algo que se encontra num caldeirão, é preciso reconhecer quanto o conteúdo desse caldeirão teve que ser mexido e remexido para produzir nossa atual paisagem linguística. E é preciso reconhecer também que os primeiros e mais importantes desses movimentos foram determinados pela grande massa de falantes africanos que iam carregando e modificando essa língua durante todo o processo. Refundado e recaracterizado por eles.

Apesar das adversidades, foi a língua falada por negros e mestiços que dominou o Brasil. Somos um país que fala português como fruto direto dessa presença negra.

Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da “última flor do Lácio”. O português brasileiro foi um broto africano, flor de Luanda.

GALINDO, Caetano. Latim em pó. Companhia das Letras, 2023. p. 181-182.

lusitanização: diz-se das coisas referentes à colonização portuguesa. In: https://www.dicionarioinformal.com.br/

última flor do Lácio: a expressão “Última flor do Lácio, inculta e bela” é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac, poeta brasileiro que viveu no período de 1865 a 1918, e refere-se à filiação da língua portuguesa ao latim. In: https://www.jussiup.com.br/2019/04/ultima-flor-do-lacio-inculta-e-bela.html

Luanda: capital de Angola, costa oeste da África do Sul

A respeito das expressões “última flor do Lácio” e “broto africano, flor de Luanda”, é correto afirmar que:

  1. A
    consistem em duas metáforas convergentes.
  2. B
    expressam a deslegitimação, pelo autor, das raízes latinas do português brasileiro.
  3. C
    enfatizam a precedência da origem africana em relação à origem portuguesa.
  4. D
    relativizam a ênfase da influência do latim para a influência africana na formação do português brasileiro.
  5. E
    referem-se, respectivamente, às influências mais tardias e às influências mais recentes da língua portuguesa, no português brasileiro.
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Resolução comentada

As duas expressões são metáforas botânicas sobre a origem do português: "última flor do Lácio" (Bilac) liga a língua ao latim, falado no Lácio, região da Itália; "broto africano, flor de Luanda" liga o português do Brasil à África, à fala dos negros escravizados.

O autor diz: "Talvez caiba deixar de lado por um momento a bela ideia da última flor do Lácio". Ele não nega a origem latina nem a chama de falsa. Apenas põe em primeiro plano outra origem, a africana, que costuma ser esquecida. Ou seja, ele relativiza a ênfase tradicional no latim e a desloca para a influência africana.

Análise das alternativas:

  • (A) As imagens são metáforas, mas apontam origens diferentes e contrastam; não convergem.
  • (B) "Deixar de lado por um momento" não é deslegitimar; o poema é chamado de "bela ideia".
  • (C) O texto trata da africanização do português no Brasil, não de uma precedência da origem africana sobre a portuguesa; além disso, o português é a língua que os africanos aprenderam e transformaram.
  • (D) Corresponde exatamente ao movimento do texto.
  • (E) A ordem temporal descrita não existe; Lácio remete ao latim, e não a influências tardias.

Alternativa D.

Pegadinha: A alternativa B engana por confundir relativizar a ênfase no latim com negar ou deslegitimar a origem latina; o autor mantém a "bela ideia".

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAs metáforas apontam origens distintas e contrastantes (latim x África), não convergentes.
  • BO autor só deixa a ideia de lado "por um momento" e a chama de "bela"; não deslegitima o latim.
  • CO texto não afirma precedência da origem africana sobre a portuguesa; os africanos transformaram a língua portuguesa aprendida.
  • ELácio remete ao latim e Luanda à África; não se trata de influências tardias e recentes.

Assuntos: interpretação de texto, metáfora, formação do português brasileiro.

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Fonte: UFPR 2024 · 1ª fase. Prova oficial ↗