PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 54 da UFPR 2023

1ª fase

Leia o poema a seguir.

Tenho quebrado copos

Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito
:::

(MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo. Companhia das Letras, 2015. p. 101-102.)

Considerando esse poema e a integralidade da obra de que foi retirado, assinale a alternativa correta.

  1. A
    O poema apresenta eventos sobrenaturais, envolvendo objetos raros e incomuns.
  2. B
    O verbo “quebrar”, quando se refere ao eu do poema, é empregado em sentido figurado.
  3. C
    O poema usa parênteses em dois versos, sendo que no primeiro a expressão retomada é a pia da cozinha.
  4. D
    O texto afirma que os copos são mastigados à noite e deixam na boca um gosto de sabão misturado ao de sangue.
  5. E
    Os cacos de copo são deixados no chão de mármore, onde é costume se deitar à noite.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
Reportar erro na questão
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Resolução comentada

Em cada alternativa, confira o que o poema diz de fato.

O poema parte de uma ação doméstica e banal: quebrar copos, recolher os cacos, embrulhá-los em jornal, como a mãe ensinou. Mas há uma camada simbólica. O eu lírico diz "eu fui feita para quebrar" e fala em "não ferir os outros" e "não me ferir". O copo frágil, que se espatifa e deixa cacos cortantes, funciona como imagem da própria fragilidade do eu e dos danos que ela causa. Por isso, quando o verbo "quebrar" se refere ao eu ("eu fui feita para quebrar"), ele não descreve um objeto de vidro: indica abalo emocional, sentido figurado.

Agora, as demais:

  • (A) Não há nada sobrenatural; os objetos são copos comuns, de uso diário.
  • (C) Os parênteses aparecem em "(esses não quebram nunca)", que retoma "os talheres", e em "(mas que não seja eu a ferir)". O primeiro retoma os talheres, não a pia.
  • (D) O texto nega isso: "não tenho mastigado o vidro". O eu lírico imagina a cena, mas diz que não a faz. Também não são os copos que são mastigados à noite.
  • (E) Também é negado: "não tenho passado a noite deitada no chão de mármore". Os cacos que ficam no chão são os não recolhidos, encontrados de manhã na cozinha, e não há costume de deitar ali.

Só a B descreve corretamente o uso da linguagem no poema.

Alternativa B.

Pegadinha: As alternativas D e E pegam quem lê as ações negadas ("não tenho mastigado", "não tenho passado a noite deitada") como se fossem afirmadas.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ANão há evento sobrenatural: os copos são comuns e a situação é doméstica.
  • CO primeiro parêntese retoma os talheres ("esses não quebram nunca"), não a pia.
  • DO poema nega a cena: "não tenho mastigado o vidro"; além disso, não são os copos que são mastigados à noite.
  • EO eu lírico nega ter passado a noite deitado no chão de mármore, e os cacos não recolhidos aparecem na cozinha de manhã.

Assuntos: interpretação de poema, sentido figurado, poesia contemporânea.

Reportar erro na resolução
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Ver como caiu na prova Questão 54 no caderno 1ª fase da UFPR 2023

Fonte: UFPR 2023 · 1ª fase. Prova oficial ↗