PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 39 da UFPR 2022
Considere o trecho abaixo, do romance de Lima Barreto:
Penetrou naquela vetusta parte da cidade, hoje povoada de lôbregas hospedarias, mas que já passou por sua época de relativo realce e brilho. Os botequins e tascas estavam povoados do que há de mais sórdido na nossa população. Aqueles becos escuros, guarnecidos, de um e outro lado, por altos sobrados, de cujas janelas pendiam peças de roupa a enxugar, mal varridos, pouco transitados, formavam uma estranha cidade à parte, onde se iam refugiar homens e mulheres que haviam caído na mais baixa degradação e jaziam no último degrau da sociedade. Escondiam, na sombra daquelas betesgas coloniais, nas alcovas sem luz daqueles sobrados, nos fundos caliginosos das sórdidas tavernas daquele tristonho quarteirão, a sua miséria, o seu opróbrio, a sua infinita infelicidade de deserdados de tudo deste mundo. Entre os homens, porém, ainda havia alguns com ocupação definida; marítimos, carregadores, soldados; mas as mulheres que ali se viam, haviam caído irremissivelmente na última degradação. Sujas, cabelos por pentear, descalças, umas, de chinelos e tamancos, outras. Todas metiam mais pena que desejo. Como em toda e qualquer seção da nossa sociedade, aquele agrupamento de miseráveis era bem um índice dela. Havia negras, brancas, mulatas, caboclas, todas niveladas pelo mesmo relaxamento e pelo seu triste fado.
(BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: FTD, 2016. p.153-154.)
Nesse trecho extraído do nono capítulo do romance Clara dos Anjos, o ambiente descrito é:
- Aum recanto arruinado do Rio de Janeiro, cuja pobreza perturba os planos amorosos de Cassi e Clara.
- Bum espaço público na capital do país, em que uma mulher embriagada acusa Cassi de tê-la desonrado.
- Cum arruamento irreconhecível para o protagonista, devido ao brilho e realce das hospedarias coloniais.
- Duma vizinhança arruinada e miscigenada onde morava Marramaque, com quem Cassi tinha uma dívida.
- Eum subúrbio formado por favelas, que eram habitadas por trabalhadores pobres e mulheres degradadas.
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Resolução comentada
A descrição apresenta uma área antiga e degradada do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. O contraste entre o passado e o presente é decisivo: o lugar “já passou por sua época de relativo realce e brilho”, mas agora abriga hospedarias sombrias, tavernas e pessoas socialmente marginalizadas.
Os “becos escuros”, os “altos sobrados” e as “betesgas coloniais” caracterizam uma região antiga da cidade, não um conjunto de favelas. Além disso, o narrador destaca a diversidade racial dos moradores, unidos pela miséria e pelo abandono social.
Para identificar a cena, é necessário relacionar essa descrição ao contexto do nono capítulo. Cassi passa por esse espaço e encontra uma mulher embriagada que o reconhece e o acusa de tê-la desonrado. O encontro evidencia as consequências de sua conduta: enquanto ele segue praticando suas conquistas, suas vítimas ficam expostas à exclusão e à degradação.
Assim, o ambiente não é apresentado como um obstáculo aos planos amorosos de Cassi e Clara, nem como a residência de Marramaque, mas como o cenário desse confronto com uma antiga vítima.
Alternativa B.
Pegadinha: A alternativa C transforma o brilho passado do lugar em uma característica presente, ignorando o contraste temporal da descrição.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA pobreza do local não é apresentada como um obstáculo aos planos amorosos de Cassi e Clara.
- CAtribui ao presente o brilho que o lugar teve no passado, contrariando sua atual degradação.
- DO espaço descrito não é identificado como a vizinhança onde morava Marramaque, nem envolve uma dívida com ele.
- EConfunde a região antiga de becos e sobrados coloniais com um subúrbio formado por favelas.
Assuntos: interpretação de texto, clara dos anjos, espaço narrativo.
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Fonte: UFPR 2022 · Fase única. Prova oficial ↗