PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 37 da UFPR 2022
Leia a seguir a primeira estrofe do poema “O meu sepulcro”, de Gonçalves Dias.
Quando, os olhos cerrando à luz da vida, O extremo adeus soltar às esperanças, Que na terra nos guiam, nos confortam E espaçam do porvir a senda estreita; Quando, isento de míseros cuidados, Disser adeus às ilusões douradas, Mas com elas também às dores cruas Da existência – aos espinhos pontiagudos, Com que a verdade o coração nos roça; Quando tocada não sentir minha alma Da luz, dos sons, das cores, das magias, Que a natureza pródiga derrama No regaço da terra – mais ditoso Serei acaso então? – Quando o meu corpo À terra, mãe comum, pedindo abrigo Dos sepulcros no vale em paz descanse; Hei de ser mais feliz porque mo cobre Pomposo mausoléu, em vez da pedra Sem nome, – em vez do túmulo de céspedes, Que s’ergue junto à estrada, e ao viandante, Ao que ali passa, uma oração suplica? Oh! não! – ao encalmado é grata a sombra; Grato descanso aos membros fatigados Presta igualmente a relva das campinas E os torrões pelo sol enrijecidos. Como o trabalhador que a sesta aguarda, O meu termo fatal sem medo espero! Eu então pedirei silêncio à morte, E fresca sombra à sepultura humilde, Que me receba, – e a cuja superfície Morram sem eco da existência as vagas. [...]
(DIAS, Gonçalves. Poesia e prosa completas: volume único. Org.: Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1998. p. 491-2.)
O auto de Natal pernambucano Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, apresenta algumas semelhanças temáticas com a estrofe acima transcrita, parte integrante do livro Últimos Cantos. Assinale a alternativa em que estão corretas as aproximações entre as duas obras.
- AA esperança e as dores da existência, mencionadas nos versos 2 e 7 (acima), estão presentes na obra de João Cabral no nascimento de uma criança: “E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver a fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há pouco / em nova vida explodida”.
- BO ato do eu-lírico de se despedir das ilusões e das dores da vida, nos versos 5 a 8 (acima), também é encenado pelo retirante Severino, quando ele comunica a decisão de se suicidar: “– Seu José, mestre carpina, / que diferença faria / se em vez de continuar / tomasse a melhor saída: / a de saltar, numa noite, / fora da ponte e da vida?”.
- CA natureza benfazeja, mencionada nos versos 10 a 13 (acima), foi representada por João Cabral nesta imagem de satisfação das necessidades humanas: “Cedo aprenderá a caçar: / primeiro, com as galinhas, / que é catando pelo chão / tudo o que cheira a comida; / depois aprenderá com / outras espécies de bichos: / com os porcos nos monturos, / com os cachorros no lixo”.
- DO eu-lírico opina, nos versos 17 a 21 (acima), que ricos e pobres se tornam iguais quando morrem; a mesma ideia foi apresentada nos seguintes versos de João Cabral: “– Não é cova grande, / é cova medida, / é a terra que querias / ver dividida. [...] É uma cova grande / para tua carne pouca, / mas a terra dada / não se abre a boca”.
- EA morte é representada como descanso merecido, nos versos 22 a 25 (acima), como também nesta fala de um coveiro, em Morte e Vida Severina: “– E esse povo lá de riba / de Pernambuco, da Paraíba, / que vem buscar no Recife / poder morrer de velhice, / encontra só, aqui chegando / cemitérios esperando. / [...] aí está o seu erro: / vêm é seguindo seu próprio enterro”.
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Resolução comentada
A aproximação correta precisa considerar o sentido dos versos nas duas obras, e não apenas a presença de palavras relacionadas à vida e à morte.
Em Gonçalves Dias, a existência reúne esperanças e sofrimento: as esperanças “nos guiam, nos confortam”, enquanto a verdade fere o coração com “espinhos pontiagudos”. A vida, portanto, não aparece como experiência exclusivamente feliz ou dolorosa.
Em Morte e Vida Severina, o nascimento da criança também articula essas duas dimensões. Ele ocorre em um contexto de pobreza e dificuldades, mas representa a capacidade de a vida persistir: ela “teimosamente, se fabrica”. O nascimento não elimina as dores da existência; oferece, porém, uma resposta esperançosa ao desespero do retirante. Essa é a aproximação apresentada em A.
Em B, Severino cogita o suicídio por meio de uma pergunta, mas não comunica uma decisão tomada. Em C, procurar comida no lixo evidencia miséria, não uma natureza generosa. Em D, a cova denuncia a desigualdade no acesso à terra, em vez de afirmar a igualdade entre ricos e pobres. Em E, o coveiro denuncia a morte dos retirantes, não a apresenta como repouso merecido.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa B engana ao apresentar como decisão de suicídio aquilo que Severino formula como uma pergunta.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BTransforma a pergunta de Severino sobre o suicídio em uma decisão já tomada.
- CConfunde a busca de alimento no lixo, sinal de miséria, com a generosidade da natureza.
- DOs versos de João Cabral denunciam a desigualdade no acesso à terra, não a igualdade entre ricos e pobres na morte.
- EA fala do coveiro denuncia o destino trágico dos retirantes, sem representar a morte como descanso merecido.
Assuntos: interpretação de poemas, comparação entre obras, morte e vida severina.
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Fonte: UFPR 2022 · Fase única. Prova oficial ↗