PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 17 da UFPR 2011
Cirino de Campos, o protagonista do romance Inocência, do Visconde de Taunay, apresenta-se como médico. Sabemos, no entanto, que ele jamais se formou em medicina e tirou todo seu conhecimento científico de um manual do século XIX, caracterizado como “seu livro de ouro”, o Chernoviz – na verdade o Formulário e guia médico, escrito pelo médico polonês Pedro Luís Napoleão Chernoviz (1812–1881). A medicina e esse manual também aparecem em mais de um texto de Urupês, de Monteiro Lobato. A esse respeito, considere as seguintes afirmativas:
- Cirino anota em seu Chernoviz tratamentos populares aprendidos com sertanejos, e isso permite que ele aplique um tratamento diferente, à base de plantas, a um homem que estava “empalamado”, ou seja, fora vítima de sucessivas maleitas e tornou-se um doente crônico.
- Cirino, de tanto estudar o Chernoviz, acaba se convencendo de que é médico de verdade, exige ser chamado de “doutor”, explora financeiramente os sertanejos que o procuram, até mesmo os que sofrem de doenças incuráveis, sem se importar com sua saúde, e morre sem se arrepender desse seu procedimento.
- No último texto de seu livro, o artigo “Urupês”, Monteiro Lobato caracteriza a medicina do caboclo como ignorante, baseada numa grande quantidade de remédios sem efeito, compendiados num “Chernoviz não escrito”, somados a um conjunto de simpatias que também não dão resultados.
- O protagonista do conto “Pollice verso”, do volume Urupês, é um filho de coronel do interior que se forma no Rio de Janeiro e leva a medicina científica para a pequena cidade, dispensando o Chernoviz e enriquecendo, porque resolve problemas que a medicina popular não é capaz de resolver.
- No conto “O engraçado arrependido”, de Urupês, o protagonista, Pontes, para obter um emprego público já ocupado por um velho cardíaco, decide matá-lo. Para isso, utiliza seu poder cômico e a leitura do Chernoviz, onde aprende que um ataque de riso pode fazer arrebentar um aneurisma fatal.
Assinale a alternativa correta.
- ASomente as afirmativas 1, 3 e 4 são verdadeiras.
- BSomente as afirmativas 1, 3 e 5 são verdadeiras.
- CSomente as afirmativas 1, 2 e 4 são verdadeiras.
- DSomente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
- ESomente as afirmativas 2, 3 e 5 são verdadeiras.
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Resolução comentada
Para resolver, é preciso conferir cada afirmativa contra as obras de Taunay (Inocência) e de Lobato (Urupês).
Afirmativa 1 (verdadeira). Em Inocência, Cirino anota no Chernoviz os remédios populares que aprende com os sertanejos. Com isso trata com ervas um homem "empalamado", doente crônico de maleitas repetidas.
Afirmativa 2 (falsa). Cirino não explora os sertanejos nem morre sem se arrepender. Ele é um falso médico que cura por boa vontade e tem bom coração. A afirmativa descreve um charlatão inescrupuloso, que ele não é.
Afirmativa 3 (verdadeira). No artigo "Urupês", Lobato descreve a medicina do caboclo, o Jeca, como ignorante. Ela se baseia em remédios sem efeito, o "Chernoviz não escrito", e em simpatias que não resolvem nada.
Afirmativa 4 (falsa). Em "Pollice verso", o protagonista não é um médico formado que dispensa o Chernoviz. Trata-se de um médico que se torna sádico, ligado ao tema das touradas e dos espetáculos de crueldade, e não de um doutor que enriquece com a ciência. A afirmativa inventa um enredo que não existe.
Afirmativa 5 (verdadeira). Em "O engraçado arrependido", Pontes quer o emprego ocupado por um velho cardíaco. Ele se informa no Chernoviz de que o riso pode romper um aneurisma, e usa seu talento cômico para matá-lo.
As verdadeiras são 1, 3 e 5.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AInclui a 4, que é falsa: "Pollice verso" não traz um médico científico que dispensa o Chernoviz e enriquece.
- CInclui as afirmativas 2 e 4, ambas falsas, e deixa de fora a 3 e a 5, que são verdadeiras.
- DConsidera verdadeiras só a 2 e a 4, que são falsas, e ignora a 1, a 3 e a 5.
- EInclui a 2, falsa, pois Cirino não é um explorador sem escrúpulos, e deixa de fora a 1, que é verdadeira.
Assuntos: Intertextualidade e paródia, Prosa romântica e José de Alencar, Pré-Modernismo: Euclides, Lobato e Augusto dos Anjos.
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Fonte: UFPR 2011 · 1ª fase. Prova oficial ↗