PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 63 da UFPR 2009
Considere os seguintes trechos extraídos dos livros Felicidade Clandestina e Como e porque sou romancista:
I. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
II. Meu imediato e êmulo, que me foi depois amigo e colega de ano em São Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antônio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do mesmo nome, bela inteligência e nobre coração ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e pórfiro.
Ansioso aguardava ele a ocasião de se desforrar da partida que eu lhe havia ganho, depois de uma luta porfiada – Todavia não lhe acudiu a resposta de pronto; e passaria sua vez, se o diretor não lhe deixasse tempo bastante para maior esforço do que fora dado aos outros e sobretudo a mim – Afinal ocorreu-lhe a resposta, e eu com o coração transido, cedi ao meu vencedor o lugar de honra conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses.
Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto do meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti senão o desprezo que merecem tais pirraças da fortuna, despeitada contra aqueles que não a incensam.
Com base nessas obras, é correto afirmar:
- AEm Clarice Lispector, a cena de infância é utilizada para ilustrar o exercício do poder. Em José de Alencar, a cena constitui um exemplo das injustiças de que o autor, segundo ele próprio, seria vítima contumaz ao longo de sua vida.
- BAmbos os autores, cada um em sua época, tematizam a luta de classes.
- CAs duas cenas de infância ilustram situações que, segundo cada narrador em suas particularidades, teriam reflexos traumáticos ao longo de suas vidas.
- DAmbos os autores relatam momentos de ruptura comportamental na vida dos personagens.
- ENo texto de Clarice Lispector, a filha do dono de livraria encarna a maldade dos seres que exercem seu poder sobre as outras. Em José de Alencar esse papel é exercido por Aguiarzinho.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Os dois trechos contam episódios de infância em que a narradora (Clarice) e o narrador (Alencar) são prejudicados por alguém que tem poder sobre eles.
No trecho I, a filha do dono da livraria tem o livro que a menina deseja e adia a entrega dia após dia. O texto fala em "plano secreto... tranquilo e diabólico": é um exercício de poder e de crueldade sobre quem depende de um favor.
No trecho II, Alencar conta que perdeu o lugar de honra da classe porque o colega Aguiarzinho teve tempo extra do diretor para responder. Ele mesmo faz a ponte com a vida adulta: "Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto do meu trabalho pela mediocridade agaloada". Ou seja, o episódio é apresentado como exemplo das injustiças que ele diz ter sofrido ao longo da vida.
Assim, a alternativa A reúne as duas leituras corretas: poder em Clarice e injustiça recorrente, segundo o próprio autor, em Alencar.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BNenhum dos trechos trata de luta de classes; são episódios pessoais de infância.
- CAlencar diz ter sentido apenas desprezo por tais pirraças, não trauma; só em Clarice há marca duradoura, e mesmo assim não é apresentada como trauma.
- DOs trechos não mostram ruptura de comportamento dos personagens; mostram frustração e adiamento.
- EAguiarzinho não é o agente da injustiça em Alencar: é elogiado como amigo; quem a causa é o diretor/o sistema, e o narrador o trata com nobreza.
Assunto: Intertextualidade e paródia.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: UFPR 2009 · 1ª fase. Prova oficial ↗