PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 51 da UFPR 2009
O texto a seguir é referência para as questões 51 e 52. · 1ª fase
Um olhar sobre o passado
"Foi o melhor dos tempos e o pior dos tempos, a idade da sabedoria e da insensatez, a era da fé e da incredulidade, a primavera da esperança e o inverno do desespero. Tínhamos tudo e nada tínhamos”. As palavras que abrem o romance Conto de duas cidades, de Charles Dickens, falam da Europa do século XVIII, às vésperas da Revolução Francesa, mas definem à perfeição as grandes expectativas e a encruzilhada vividas pela geração de 1968 no Brasil e no mundo. Naquele ano que para alguns não terminou e para a maioria terminou mal, o “poder jovem” tomou de assalto as ruas de Paris, Bonn, Roma, Praga, Washington, San Francisco, Cidade do México, Rio de Janeiro e São Paulo, entre outras. Sessenta e oito foi o ápice da geração baby boomer, nascida depois da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário de seus pais, esses jovens eram urbanos, desfrutavam do conforto trazido pela tecnologia, ouviam sons estridentes de rock’n roll, usavam cabelos e barbas compridos, minissaias, experimentavam drogas e, de posse da pílula anticoncepcional, forçaram a porta da revolução sexual. Mas eles queriam mais e, em 1968, se insurgiram em todos os cantos do planeta. Como um rastilho de pólvora, reivindicações estudantis se transformaram, da noite para o dia, em rebeliões contra governos, instituições, a Guerra do Vietnã e, por fim, toda a ordem vigente. “Sejamos realistas, exijamos o impossível”; “É proibido proibir”, diziam os slogans dos estudantes em Paris. No final, o establishment careta balançou, mas não caiu. Nos principais pontos da revolta, a velha ordem venceu “e o sinal ficou fechado para os jovens”: os conservadores ganharam as eleições na França, os tanques soviéticos acabaram com a Primavera de Praga e Richard Nixon foi eleito presidente dos EUA. Como consolo, 1968 deixou como herança o fim dos valores puritanos da sociedade do pós-guerra, com o advento de uma moral sexual menos repressiva. Às vésperas de 2008, o legado daquele ano grávido de utopias tragicamente abortadas permanece ainda desafinando o coro dos contentes e alimentando esperanças de um futuro menos sombrio.
(CAMARGO, Cláudio; LOBATO, Eliane. ISTOÉ, ed. 1987, 28 nov. 2007.)
Identifique as afirmações que confirmam a avaliação de 1968 como “aquele ano grávido de utopias tragicamente abortadas”.
1. Os tanques soviéticos acabaram com a Primavera de Praga.
2. Richard Nixon foi eleito presidente dos Estados Unidos.
3. 1968 deixou como herança o fim dos valores puritanos.
4. Os Estados Unidos foram derrotados no Vietnã.
Assinale a alternativa correta.
- ASomente a afirmativa 2 é verdadeira.
- BSomente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.
- CSomente a afirmativa 4 é verdadeira.
- DSomente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
- ESomente as afirmativas 3 e 4 são verdadeiras.
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Resolução comentada
A expressão "ano grávido de utopias tragicamente abortadas" fala de sonhos de mudança que foram interrompidos, derrotados. Então devemos procurar, entre as afirmações, os fatos que mostram a derrota do movimento de 1968, segundo o próprio texto.
- O texto diz que, nos principais pontos da revolta, "a velha ordem venceu", e cita como exemplo "os tanques soviéticos acabaram com a Primavera de Praga". Isso é uma utopia (socialismo com face humana) esmagada pela força. Confirma.
- O texto também cita a eleição de Richard Nixon, um conservador, nos EUA, como vitória da velha ordem sobre a juventude rebelde. Confirma.
- O fim dos valores puritanos é apresentado como "consolo", ou seja, uma conquista que 1968 deixou. Não é um sonho abortado. Não confirma.
- A derrota dos EUA no Vietnã não aparece no texto como resultado de 1968 (a guerra só terminou em 1975) e, além disso, seria uma vitória do lado contestado pelos jovens, não um aborto de utopia. Não confirma.
Portanto, só as afirmações 1 e 2 confirmam a avaliação.
Alternativa B.
Pegadinha: A alternativa D engana por incluir a 3, que é um fato verdadeiro de 1968, mas o texto o trata como consolo, não como utopia abortada.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AIgnora a afirmação 1, que também é citada no texto como vitória da velha ordem (Primavera de Praga esmagada).
- CA derrota dos EUA no Vietnã não consta no texto como desfecho de 1968 e não representa utopia abortada.
- DInclui a 3, que o texto apresenta como consolo (herança positiva), e exclui a 2, que confirma a derrota dos jovens.
- EReúne duas afirmações que não indicam utopias abortadas: uma é herança positiva e a outra não aparece no texto.
Assuntos: Contracultura e movimentos de 1968, Guerra Fria: bipolaridade e conflitos.
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Fonte: UFPR 2009 · 1ª fase. Prova oficial ↗