PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 46 da UFPR 2009
O texto a seguir é referência para as questões 46 a 48. · 1ª fase
Sinais
Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas.
Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo. Na falta de uma documentação verbal para se pôr ao lado das pinturas rupestres e dos artefatos, podemos recorrer às narrativas de fábulas, que do saber daqueles remotos caçadores transmitem-nos às vezes um eco, mesmo que tardio e deformado. Três irmãos (narra uma fábula oriental, difundida entre os quirguizes, tártaros, hebreus, turcos...) encontram um homem que perdeu um camelo – ou, em outras variantes, um cavalo. Sem hesitar, descrevem-no para ele: é branco, cego de um olho, tem dois odres nas costas, um cheio de vinho, o outro cheio de óleo. Portanto, viram-no? Não, não o viram. Então são acusados de roubo e submetidos a julgamento. É, para os irmãos, o triunfo: num instante demonstram como, através de indícios mínimos, puderam reconstruir o aspecto de um animal que nunca viram.
Os três irmãos são evidentemente depositários de um saber de tipo venatório* (mesmo que não sejam descritos como caçadores). O que caracteriza esse saber é a capacidade de, a partir de dados aparentemente negligenciáveis, remontar a uma realidade complexa não experienciável diretamente. Pode-se acrescentar que esses dados são sempre dispostos pelo observador de modo tal a dar lugar a uma seqüência narrativa, cuja formulação mais simples poderia ser “alguém passou por lá”. Talvez a própria idéia de narração (distinta do sortilégio, do esconjuro ou da invocação) tenha nascido pela primeira vez numa sociedade de caçadores, a partir da experiência da decifração das pistas. O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda hoje se funda a linguagem da decifração venatória – a parte pelo todo, o efeito pela causa – são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese – obviamente indemonstrável. O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos.
(GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais. S. Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 151–2.)
**Venatório: relativo à caça e seu universo.
Tendo em vista o texto, considere as seguintes afirmativas:
- O autor fala de um conhecimento que implica observação, dedução e organização, distinguindo-se das crendices populares.
- A linguagem da decifração venatória se caracteriza pelo uso da metonímia e da metáfora.
- Uma estratégia para a análise de situações problemáticas é recorrer a fábulas de caçadores.
- A história da humanidade mostra que a transmissão de conhecimento sobre atividades como a caça, por exemplo, se fazia por meio de pinturas rupestres.
Assinale a alternativa correta.
- ASomente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
- BSomente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
- CSomente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
- DSomente a afirmativa 2 é verdadeira.
- ESomente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.
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Resolução comentada
O texto apresenta um saber construído pela interpretação de vestígios: o caçador observa sinais pequenos e, a partir deles, reconstrói acontecimentos que não presenciou.
A afirmativa 1 é verdadeira. Esse conhecimento envolve observação das pistas, dedução das características da presa e organização dos indícios em uma sequência coerente. O autor distingue essa atividade de práticas como o sortilégio, o esconjuro e a invocação, ligadas a crenças e rituais.
A afirmativa 2 é falsa. O trecho decisivo afirma que a linguagem da decifração venatória utiliza a metonímia, “com rigorosa exclusão da metáfora”. A parte permite reconstruir o todo; o efeito permite identificar sua causa.
A afirmativa 3 é falsa. As fábulas são usadas como fontes para investigar o conhecimento dos antigos caçadores, na ausência de documentação verbal. O autor não recomenda recorrer a elas como estratégia geral para resolver situações problemáticas.
A afirmativa 4 é verdadeira. Ao mencionar pinturas rupestres e artefatos como documentação, o texto reconhece formas não verbais de registro e transmissão desse conhecimento. Isso não significa que fossem os únicos meios de transmiti-lo.
Portanto, somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras. Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BInclui a afirmativa 2, embora o texto exclua a metáfora, e deixa de incluir a afirmativa 1.
- CTransforma o uso histórico das fábulas em estratégia geral de resolução de problemas e exclui a afirmativa 4.
- DConsidera verdadeira justamente a afirmativa 2, contrariada pela exclusão explícita da metáfora.
- EInclui as afirmativas falsas 2 e 3 e exclui a afirmativa verdadeira 1.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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Fonte: UFPR 2009 · 1ª fase. Prova oficial ↗