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Questão 70 da UFPR 2008

1ª fase · História: Escravidão no Império e abolição

“A introdução de novos africanos no Brasil não aumenta a nossa população e só serve de obstar a nossa indústria. Apesar de entrarem no Brasil perto de quarenta mil escravos anualmente, o aumento desta classe é nulo, ou de muito pouca monta: quase tudo morre ou de miséria ou de desesperação, e todavia custaram imensos cabedais. [...] Os senhores que possuem escravos vivem, em grandíssima parte, na inércia, pois não se vêem, precisados pela fome ou pobreza, a aperfeiçoar sua indústria ou melhorar sua lavoura. [...] Ainda quando os estrangeiros pobres venham estabelecer-se no país, em pouco tempo deixam de trabalhar na terra com seus próprios braços e, logo que podem ter dois ou três escravos, entregam-se à vadiação e desleixo.”

(ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a Escravatura, de 1823. In: DOLHNIKOF, Miriam. José Bonifácio de Andrada e Silva: Projetos para o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 56–57.)

Com base no texto e nos conhecimentos sobre o abolicionismo no Brasil, é correto afirmar que nas duas primeiras décadas do século XIX:

  1. A
    o movimento abolicionista consolidava uma articulação de partidos políticos em prol da libertação dos africanos e da sua inserção na sociedade brasileira como trabalhadores livres para a agricultura e para a indústria.
  2. B
    as elites dirigentes estavam plenamente convencidas da necessidade da abolição do tráfico negreiro para defender o sistema escravista das pressões empreendidas pelo movimento humanitário internacional.
  3. C
    alguns setores sociais pretendiam promover o progresso econômico do Brasil com base na indústria e viam os negros como obstáculo a esse desenvolvimento, na medida em que eles não tinham qualquer aptidão para o trabalho naquele setor.
  4. D
    alguns integrantes da elite dominante passaram a compreender a escravidão como um problema que dificultava o progresso nacional, já que a sua manutenção desestimulava novos empreendimentos econômicos.
  5. E
    as elites dirigentes do Brasil estavam convencidas de que a abolição da escravidão ocorreria mais cedo ou mais tarde e era necessário, portanto, substituir o escravo pelo trabalhador livre.
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O texto é de José Bonifácio, em 1823, e mostra uma crítica à escravidão feita por alguém da própria elite, não por um movimento popular ou partidário. Ele usa argumentos econômicos, não só humanitários.

Veja o que ele afirma:

  1. A entrada de cerca de quarenta mil africanos por ano não amplia a população escrava, porque muitos morrem de miséria. O tráfico, portanto, é um mau negócio, pois "custaram imensos cabedais".
  2. Os senhores de escravos "vivem na inércia": como não são pressionados pela necessidade, não aperfeiçoam a indústria nem melhoram a lavoura.
  3. Até estrangeiros pobres, quando conseguem escravos, abandonam o trabalho e caem na "vadiação e desleixo".

A conclusão é que a escravidão desestimula a inovação e o empreendimento, ou seja, trava o progresso nacional. Isso é exatamente o que diz a alternativa D, e quem pensava assim era uma minoria ilustrada da elite.

As demais não se sustentam. Não havia partidos abolicionistas em 1823 (A). A elite, em geral, defendia o tráfico e a escravidão, e não estava convencida da necessidade de acabar com eles (B e E). E o texto não diz que os negros não têm aptidão para a indústria; o problema apontado está nos senhores e no sistema (C).

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ANão havia partidos políticos abolicionistas articulados nas primeiras décadas do século XIX; o abolicionismo organizado é muito posterior.
  • BA maior parte da elite defendia o tráfico e a escravidão; não estava plenamente convencida da necessidade de abolir o tráfico.
  • CO texto critica o sistema escravista e os senhores, e não afirma que os negros careciam de aptidão para a indústria.
  • EGeneraliza para toda a elite uma posição de minoria e atribui ao texto a ideia de substituir o escravo por trabalhador livre, que ele ainda critica.

Assunto: Escravidão no Império e abolição.

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Fonte: UFPR 2008 · 1ª fase. Prova oficial ↗