PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 51 da UFPR 2008
O texto a seguir é referência para as questões 50 e 51. · 1ª fase
A Filosofia como investigação
Todos sabem que o cético duvida de tudo. E todos sabem que duvidar de tudo não tem sentido: as idéias céticas podem ser sedutoras, mas dizer que não sabemos nada, que não temos certeza de nada é algo exagerado, absurdo e auto-refutável. O ceticismo, usualmente, é tido como algo negativo, enquanto na filosofia, freqüentemente é descrito como uma posição que deve ser desafiada, enfrentada e vencida.
Essa atitude negativa que se atribui ao filósofo cético, porém, não é mais que um aspecto incidental e parcial do ceticismo. Na verdade, tal dúvida universal é inventada por filósofos modernos. Por isso, muitos autores que lidam com a questão cética são responsáveis pela difusão de uma imagem do ceticismo que não faz plena justiça à tradição intelectual que lhe deu origem. Oswaldo Porchat, um dos mais importantes filósofos brasileiros, já disse que a filosofia moderna e contemporânea costuma recorrer a "caricatas figurações" da filosofia cética: "cada filósofo fabrica seu inimigo cético particular e atribui-lhe esdrúxulas doutrinas ad hoc forjadas de modo que melhor sejam refutadas".
Quando nos defrontamos diretamente com os escritos e as idéias dos céticos, em especial dos céticos gregos antigos que sobreviveram ao tempo, encontramos uma imagem surpreendentemente rica e interessante do ceticismo, bem como uma maneira peculiar de questionar as doutrinas filosóficas. Há, assim, uma diferença crucial entre o cético moderno e o cético antigo. O primeiro lança uma dúvida radical sobre todos os domínios do conhecimento. Lembremo-nos, por exemplo, dos cenários onde são traçados os argumentos do sonho e do gênio maligno nas Meditações de Descartes: tenho o pensamento de que estou aqui, neste momento, sentado nesta cadeira, segurando uma folha de papel, mas posso estar sonhando ou sendo enganado por um deus poderoso. Por essa razão, uma questão central da epistemologia moderna é a seguinte: já que um pensamento que eu tomo como verdadeiro pode ser falso ou ilusório, o que deve ocorrer a um pensamento para lhe conferir a qualidade de conhecimento? O cético antigo, por sua vez, não supõe que todas as nossas crenças são ou podem ser simultaneamente falsas. A postura dubitativa do cético é ainda mais radical, pois a sua questão cética central não seria "é possível conhecer?" ou "como conhecemos?", mas a pergunta mais fundamental: "temos alguma razão para acreditar?" [...]
(SILVA FILHO, Waldomiro José da. Cult n. 116, ago. 2007.)
Segundo o texto, qual é a principal diferença entre o ceticismo antigo e o moderno?
- AEnquanto o ceticismo moderno é otimista, o antigo é pessimista.
- BO ceticismo antigo tinha uma visão caricaturada do mundo, que foi modificada no moderno.
- CO ceticismo antigo aplica-se a todos os domínios do conhecimento; o moderno é mais restrito.
- DO ceticismo moderno questiona as condições do conhecimento; o antigo, se há por que crer.
- EO ceticismo moderno é mais rico e interessante que o antigo.
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Resolução comentada
O texto contrapõe dois tipos de ceticismo, e a diferença está na pergunta central de cada um.
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Cético moderno (Descartes, com os argumentos do sonho e do gênio maligno): lança dúvida radical sobre os domínios do conhecimento. Como um pensamento tido por verdadeiro pode ser falso, a questão é epistemológica: "é possível conhecer?", "como conhecemos?", ou seja, o que um pensamento precisa ter para valer como conhecimento. Isso significa questionar as condições do conhecimento.
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Cético antigo: não supõe que todas as crenças são ou podem ser falsas ao mesmo tempo. Sua dúvida é, segundo o autor, "ainda mais radical", e a pergunta central é outra: "temos alguma razão para acreditar?". Ele questiona se há por que crer.
A alternativa que reúne as duas perguntas, cada uma no seu lugar, é a D.
As demais falham: o texto não opõe otimismo a pessimismo; a caricatura é feita pelos filósofos modernos sobre o ceticismo, não pelos antigos; a dúvida sobre todos os domínios é do moderno, não do antigo; e quem é descrito como "rico e interessante" é o ceticismo antigo.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa C engana por inverter os sujeitos: atribui ao cético antigo a dúvida sobre todos os domínios, que o texto liga ao moderno.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto não trata de otimismo ou pessimismo; fala de perguntas diferentes feitas por cada ceticismo.
- BA caricatura é feita pela filosofia moderna sobre o ceticismo antigo, não é uma visão de mundo dos antigos.
- CInverte os papéis: a dúvida radical sobre todos os domínios é do cético moderno.
- EInverte: a imagem rica e interessante é a do ceticismo antigo, encontrada nos escritos dos gregos.
Assuntos: Filosofia helenística e romana, Humanismo renascentista e Montaigne.
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Fonte: UFPR 2008 · 1ª fase. Prova oficial ↗