PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 47 da UFPR 2008
O texto a seguir é referência para as questões 46 a 48. · 1ª fase
Sem culpa e sem vergonha
No passado, a corrupção da política brasileira costumava andar de mãos dadas com a inflação. O resultado dessa combinação era a crise institucional. Hoje, morto o dragão inflacionário e com o sistema aberto a uma maior competitividade, a corrupção que, entre outras coisas, bloqueia a eficiência dos serviços públicos, surge em estado puro e remete a questões fundamentais. De onde vem, afinal, essa roubalheira institucionalizada que, como revela o governo Lula, independe de coloração ideológica e partido político? Seria ela o resultado das nossas origens como uma colônia semi-abandonada, povoada por degredados e gente capaz de tudo para subir na vida? Estaria ligada a um mero banditismo, pronto a ser sanado por uma política eficiente? Ou teria uma ligação profunda com um desenho institucional marcado pela proteção aos superiores, a ponto de lhes garantir impunidade quando praticam a corrupção político-partidário-administrativa?
No centro da corrupção à brasileira existe uma indecisão cultural (ou moral se quiserem) entre duas éticas que operam em qualquer sistema social. A primeira é a ética particularista da casa, dos amigos e da família, que manda proteger, ignorar, relevar, condescender e perdoar o ofensor (corrente em sociedades tribais e arcaicas); a outra é a ética universalista da rua (ou do mundo público), que demanda, ao contrário, tratar com isenção ou igualdade, aquilatar a gravidade da ofensa, trazer a público o ofensor e punir adequadamente quem quer que tenha cometido o delito. Nosso problema, como a dinâmica da vida pública não cansa de mostrar, é que até hoje temos consciência dessa duplicidade, mas ignoramos solenemente suas implicações. Assim, quando se trata dos outros, somos implacáveis e a eles aplicamos sem hesitar as normas universais do mundo da rua. Maximizamos a dimensão impessoal da ofensa e tratamos a pessoa como um indivíduo: um mero cidadão também sujeito à lei. Mas, quando são os nossos, eles são vítimas da imprensa, meros aloprados, ou crianças. Como sequer julgar o presidente do Congresso Nacional, se ele é nosso colega, amigo e nos favoreceu em inúmeras situações?
Tenho para mim que o intolerável e verdadeiramente enlouquecedor no Brasil atual não é o jogo de forças entre pessoas e leis, rotineiro em qualquer sistema, mas a manutenção daquelas duas éticas no campo do “político”, justamente a esfera destinada a resolver a duplicidade. A coisa chegou a tal ponto que a palavra “política” passou a designar precisamente esse jogo amoral no qual a igualdade é sempre ultrapassada por pessoas que, desdenhando das leis, passam a controlá-las em vez de zelar por elas. Ou um ritual no qual os criminosos são acusados mas, quando são importantes, livram-se da pena porque têm comprovadas relações pessoais e partidárias com os donos do poder. Pior ainda, “política” passou a designar uma rotina de desfaçatez que é a manifestação mais patente do outro traço daquela duplicidade ética: uma extraordinária ambigüidade no que diz respeito a dois sentimentos que acompanham o rompimento da norma, a saber, a vergonha e a culpa.
(DAMATTA, Roberto. Veja, 15 ago. 2007 – adaptado.)
No segundo parágrafo do texto, o autor faz usos diferenciados da primeira pessoa do plural, ora para designar conjuntos amplos de pessoas, ora conjuntos mais restritos. Observe a última frase do parágrafo:
“Como sequer julgar o presidente do Congresso Nacional, se ele é nosso colega, amigo e nos favoreceu em inúmeras situações?”
As formas da primeira pessoa do plural destacadas nessa frase designam:
- Ao povo brasileiro.
- Bos leitores da revista Veja.
- Cum grupo de parlamentares.
- DRoberto Damatta e seus amigos.
- Eo Poder Judiciário.
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Resolução comentada
Em português, a primeira pessoa do plural ("nós", "nosso", "nos") pode abranger grupos de tamanhos diferentes. Por isso é preciso descobrir, em cada trecho, quem fala e a quem a frase se refere.
No parágrafo, o autor usa o "nós" em dois sentidos:
- Em "temos consciência", "somos implacáveis" e "ignoramos", o "nós" é amplo e inclui os brasileiros em geral.
- Na última frase, o "nós" fica restrito e se refere a quem poderia ou deveria julgar o presidente do Congresso.
A pergunta da frase é: "Como sequer julgar o presidente do Congresso Nacional, se ele é nosso colega, amigo e nos favoreceu em inúmeras situações?" Quem chama o presidente do Congresso de "colega" é outro integrante do Congresso. Quem foi favorecido por ele em inúmeras situações também é alguém do meio político, que depende de favores e alianças. Esse "nós" é a voz de um parlamentar, e "nosso colega" designa os demais membros do grupo.
O povo em geral não é colega do presidente do Congresso. Os leitores da revista não têm essa relação com ele. O autor não fala de si e de seus amigos, e o Judiciário não aparece na frase.
Assim, "nosso" e "nos" designam um grupo de parlamentares.
Alternativa C.
Pegadinha: A alternativa A engana porque o "nós" do parágrafo costuma ser amplo (brasileiros), mas nesta frase o "nós" é restrito por causa de "colega" e dos favores recebidos.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO sentido amplo (povo brasileiro) vale para outras passagens do parágrafo, não para esta frase, em que "colega" restringe o grupo.
- BOs leitores da Veja não são colegas nem foram favorecidos pelo presidente do Congresso.
- DNada na frase remete ao autor e a seus amigos pessoais; ele fala de uma situação típica do meio político.
- EO Judiciário não é mencionado; "colega" do presidente do Congresso indica parlamentares.
Assuntos: Pronomes e pessoas do discurso, Coesão referencial (retomada, anáfora e catáfora).
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Fonte: UFPR 2008 · 1ª fase. Prova oficial ↗