PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 61 da UFPR 2007
Leia o fragmento abaixo, extraído do conto “A mão no ombro” (in: Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles):
“O homem estranhou aquele céu verde com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o úmido perfume de ervas. E o silêncio cristalizado como num quadro, com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário. Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa, mas não era outono.”
Assinale a alternativa correta.
- AA presença de um estranho jardim aproxima “A mão no ombro” do conto “Herbarium”, narrativa em que as plantas igualmente colaboram para a composição de um cenário denso, pouco objetivo.
- BA atmosfera de mistério relaciona-se com a psicologia da personagem que – assim como diversos protagonistas de Seminário dos ratos – é um ser humano isolado do convívio social.
- CA variedade de detalhes e nuanças do trecho acima resultam numa exatidão descritiva típica de uma descrição realista.
- DA dificuldade do personagem para identificar o astro luminoso – lua ou sol – justifica-se pelo predomínio dos cenários urbanos na ficção de Lygia Fagundes Telles.
- EAssim como em livros publicados nos anos 70 por Dalton Trevisan e Clarice Lispector, os elementos fantásticos dos contos de Seminário dos ratos são resultado de uma estratégia para driblar a vigilância da censura no período da ditadura militar.
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Resolução comentada
O trecho pertence a um conto de Seminário dos ratos (1977), livro em que Lygia Fagundes Telles mistura o cotidiano com o fantástico e o insólito. Vamos ver o que o fragmento mostra e conferir cada afirmação.
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O cenário é um jardim estranho: céu verde, lua de cera, "sol apagado", luminosidade fosca, folhas cor de brasa fora do outono. O narrador não consegue dizer se é noite ou manhã.
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Tudo isso cria uma ambientação densa e irreal, com a natureza (galho, folhas, ervas, perfume) compondo uma atmosfera de estranhamento, e não uma descrição exata da realidade.
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Em "Herbarium", outro conto do mesmo livro, as plantas também são centrais para um cenário carregado e pouco objetivo. A comparação da alternativa A é, portanto, correta.
Quanto às outras:
- A descrição é rica em detalhes, mas serve à incerteza e ao fantástico, não à exatidão realista (C).
- A dúvida sobre lua ou sol não tem relação com cenários urbanos, que nem aparecem no trecho (D).
- O isolamento social não é o que explica o mistério, e a generalização sobre os protagonistas é forçada (B).
- Atribuir o fantástico à fuga da censura é uma generalização que não se sustenta, sobretudo para Clarice Lispector (E).
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BAtribui o mistério ao isolamento social da personagem, o que o trecho não mostra, e generaliza para todos os protagonistas do livro.
- COs detalhes e as nuanças servem ao estranhamento e à imprecisão (céu verde, lua ou sol), não a uma exatidão realista.
- DA dúvida sobre o astro vem da atmosfera fantástica do jardim; o trecho não é urbano e a obra da autora não é predominantemente urbana.
- EReduz o fantástico a estratégia contra a censura, generalização sem base para esses autores e para o livro.
Assuntos: Conto e romance pós-45: Lygia Fagundes Telles e outros, Personagem, enredo, tempo e espaço.
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Fonte: UFPR 2007 · 1ª fase. Prova oficial ↗