PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 50 da UFPR 2007
O texto e a charge a seguir são referências para as questões 49 a 51. · 1ª fase
Escola do crime
O ranking nacional de aprendizado dos alunos em português e matemática, divulgado neste mês, é uma das explicações para o poderio do PCC. A cidade de São Paulo demonstrou, nessa prova, pior desempenho do que quase todas as capitais. Ruins na média, os índices das escolas paulistanas são especialmente devastadores na periferia, ajudando a formar multidões de jovens que, pela baixa qualificação, não conseguem se colocar no mercado de trabalho – e, assim, se seduzem pelas ofertas do crime organizado.
Para entender o poder de arregimentação do PCC é preciso, antes de mais nada, prestar atenção à informação levantada pela Fundação Seade: 65% da população entre 15 e 19 anos mora na periferia, onde faltam os mais diversos serviços públicos, a começar do policiamento. Esse grupo terá poucas condições de usufruir de uma educação de qualidade, capaz de levá-los a se inserir na sociedade. O caminho mais provável, para muitos, é a evasão.
A taxa de desemprego juvenil em vários bairros da periferia, de acordo com o Dieese, chega a 70% – a média para todas as idades gira em torno de 16%. Apenas na cidade, cerca de 500 mil pessoas entre 15 e 24 anos, o suficiente para lotar cerca de oito estádios do Morumbi, nem estudam nem trabalham. O quadro se agrava ainda mais quando se contabilizam os números de toda a região metropolitana, foco de arregimentação do PCC – e, aí, se chega a perto de um milhão de jovens, entre 15 e 24 anos, que não fazem nada e, pela baixa escolaridade, não têm perspectivas profissionais.
Para muitos desses jovens, o caminho para o crime organizado – inclusive o PCC – é quase uma linha reta, começando dos problemas familiares. [...] Esses jovens, sem perspectiva, rejeitados pela escola e pela família, acabam encontrando na gangue uma dupla satisfação: fonte de renda e de auto-estima. A gangue passa a ser a família que eles não tiveram e o escudo para que sejam respeitados e temidos.
Como eles se sentem com pouco a perder e precisam dar uma demonstração de coragem e de solidariedade com o grupo, ficam expostos e acabam indo para a cadeia. A essa altura já sabem, há muito tempo, que conseguem ganhar, em um dia na criminalidade, o que não fariam em um mês honestamente – e, a essa altura, já ficaram insensíveis à violência. Quando chegam à prisão, são seres disciplinados e treinados para obedecer às ordens do crime organizado. Sabem que, nesse ambiente, a pena de morte faz parte de um código de honra. Não pagar dívida, por exemplo, é um deslize tido como, literalmente, mortal. Ao sair da cadeia, eles sabem que a desobediência é uma falta grave – e, além do mais, não teriam mesmo onde conseguir ganhar dinheiro fora da delinqüência.
A abundância de jovens sem perspectivas facilita a arregimentação do PCC; o treino e a disciplina deles ajudam na organização e nas ações arriscadas capazes de parar uma das maiores cidades do mundo.
(DIMENSTEIN, Gilberto. Folha de S. Paulo, 14 jul. 2006.)
Segundo o autor do texto, as prisões:

(ANGELI, www.charges.uol.com.br, acessado em 3 ago. 2006.)
- Aenfraquecem o crime organizado, ao reduzir o número de integrantes das facções disponíveis para executar as ações planejadas.
- Bdificultam as ações dos grupos criminosos, devido à precariedade da comunicação dentro dos presídios.
- Csão ocupadas apenas pelos criminosos mais jovens e inexperientes, que se expõem durante as ações das gangues.
- Dpossibilitam a proteção de integrantes das facções ameaçados de morte por transgredir o código de honra do grupo.
- Esão espaços de treinamento e disciplina, que garantem a fidelidade de ex-presidiários às facções criminosas.
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Resolução comentada
A questão pede o que o autor do texto diz sobre as prisões, e a resposta está no penúltimo parágrafo. A charge de Angeli reforça a ideia: a Febem seria a "escola" e a detenção, a "faculdade" do crime.
Veja o que o autor afirma sobre a prisão:
- Os jovens que chegam à cadeia já são "seres disciplinados e treinados para obedecer às ordens do crime organizado". A prisão, portanto, é espaço de treinamento e disciplina.
- Dentro dela, a pena de morte faz parte de um "código de honra", e a dívida não paga é falta "mortal".
- Ao sair, o ex-presidiário sabe que "a desobediência é uma falta grave" e que não teria onde ganhar dinheiro fora da delinquência. Ou seja, continua fiel à facção.
Essas ideias coincidem com a alternativa E: treinamento, disciplina e fidelidade de ex-presidiários às facções.
As demais contradizem o texto ou inventam informações. O autor não diz que a prisão enfraquece o crime, nem que a comunicação é precária. Também não diz que só jovens inexperientes são presos nem que a cadeia protege quem desobedeceu ao código.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto afirma o oposto: a prisão reforça a organização, e não reduz os integrantes disponíveis.
- BNada no texto fala em precariedade da comunicação nos presídios.
- CO texto não limita as prisões aos criminosos mais jovens e inexperientes; fala de jovens que se expõem, mas não de ocupação apenas por eles.
- DPelo texto, quem transgride o código de honra é ameaçado de morte, e a prisão não o protege.
Assunto: Tema, ideia central e informações explícitas.
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Fonte: UFPR 2007 · 1ª fase. Prova oficial ↗