PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 53 da UFPR 2006
O texto a seguir é referência para as questões 51 a 54. · 1ª fase
Passo no Rumo Certo
Na semana passada, a claque convocada para a inauguração de um aeroporto na cidade mineira de Uberlândia ouviu de Lula a seguinte frase: “Quero dizer que a crise é extremamente grave. Em horas de crise é preciso ter muita paciência para não tomar decisão precipitada, não se deixar levar pelo estado emocional, mas, sim, pela razão”. Embora o presidente já tenha se manifestado a respeito da difícil situação política em diversas ocasiões (não raro para negar a sua realidade, como se tudo não passasse de uma alucinação coletiva promovida por prestidigitadores da elite, mas deixemos isso de lado), foi a primeira vez que ele uniu à palavra “crise” um advérbio de intensidade, “extremamente”, e um adjetivo grandiloqüente, “grave”. O encadeamento de tais termos permite supor que Lula finalmente (no que pode ser considerado um advérbio de alívio) reconheceu a existência da fissura ética, política e criminosa que há mais de 100 dias se aprofunda mais e mais, levando o governo de cambulhada.
Nessa hipótese, e não se quer aqui evocar o doutor Pangloss, aquele personagem de Voltaire para quem todos vivíamos no melhor dos mundos, é uma ótima notícia o presidente ter admitido que o horizonte anda carregado. Pelo simples motivo de que, para sanar um problema, qualquer que seja ele, é preciso antes de mais nada reconhecer sua existência. Caberia agora a Lula contribuir para que a resolução da crise seja efetiva, não deixando margem à impressão olfativa de que tudo terminará em pizza. O presidente volta e meia afirma que não tem como interferir no andamento das investigações e das punições. Não é verdade. Pelo peso de seu cargo, e sem extrapolar suas atribuições constitucionais, Lula pode, sim, proceder a que corrompidos e corrompedores, no Legislativo e no Executivo, sintam na carne e na biografia que não sairão impunes dos crimes de desvio de dinheiro público, formação de quadrilha e tráfico de influência. Ao empenhar-se com afinco nesse objetivo, movido pela razão e sem emocionalismos, o presidente prestaria ao mesmo tempo um grande serviço ao Brasil e a si próprio.
(Veja, Editorial, 07 jul. 2005.)
Os editoriais são textos em que os jornais ou revistas expõem o ponto de vista dos editores sobre questões atuais. No editorial citado, a revista Veja defende:
- Aa participação ativa da presidência da República, para garantir a punição dos políticos envolvidos com a corrupção.
- Buma investigação cautelosa das denúncias de corrupção, para evitar decisões precipitadas, seja do legislativo, seja do executivo.
- Ca isenção e distanciamento da presidência, que deve respeitar o princípio da autonomia do legislativo.
- Da investigação sobre a responsabilidade de membros do executivo e do próprio presidente Lula nos casos de corrupção.
- Ea concretização de um acordo entre os partidos para pôr fim à crise e permitir a retomada das atividades rotineiras do legislativo.
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Resolução comentada
Em questões sobre o ponto de vista de um editorial, o que conta é a tese que o texto defende, e não as frases que ele apenas cita.
A tese aparece no segundo parágrafo. A revista começa elogiando o reconhecimento da crise por Lula, mas diz que "caberia agora a Lula contribuir para que a resolução da crise seja efetiva". Em seguida, rebate a ideia de que o presidente "não tem como interferir" nas investigações e punições: "Não é verdade".
Para a Veja, Lula pode, "sem extrapolar suas atribuições constitucionais", agir para que corrompidos e corrompedores, no Legislativo e no Executivo, "sintam na carne e na biografia que não sairão impunes". Ou seja, a revista defende uma atuação firme e engajada da presidência para garantir a punição dos envolvidos.
Conferindo as alternativas:
- A frase sobre "decisão precipitada" é de Lula, e não da revista. Por isso a ideia de cautela não é a tese do editorial.
- O texto critica o distanciamento do presidente, então a ideia de isenção vai contra a tese.
- O texto não propõe investigar o próprio Lula.
- O texto não defende acordo político. Ele teme que "tudo termine em pizza".
A que corresponde à tese é a participação ativa da presidência para garantir a punição.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa B engana por reaproveitar a fala de Lula sobre não tomar decisão precipitada, que o editorial só cita e não defende.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BA cautela para evitar decisão precipitada é fala de Lula citada no texto, não a tese da revista, que cobra ação e punição.
- CA revista rebate justamente o distanciamento do presidente, dizendo que ele pode sim interferir sem extrapolar suas atribuições.
- DO editorial não propõe investigar Lula, e sim que ele atue para punir corrompidos e corrompedores.
- EUm acordo para encerrar a crise é o que a revista teme ("tudo terminará em pizza"), não o que defende.
Assuntos: Tese, ponto de vista e estrutura argumentativa, Gêneros jornalísticos e de opinião.
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Fonte: UFPR 2006 · 1ª fase. Prova oficial ↗