PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 50 da UFPR 2006

1ª fase · Português: Intertextualidade e comparação entre textos

O texto a seguir é referência para as questões 48 a 50. · 1ª fase

Ele, Ela

Num dia cinzento de janeiro, Lawrence Summers – o presidente da Universidade Harvard – sugeriu que diferenças inatas na estrutura do cérebro masculino e do feminino poderiam ser um fator determinante para a relativa escassez de mulheres na ciência. As declarações reacenderam um debate que se desenrola há um século, desde que os cientistas que mediam a dimensão do cérebro de ambos os sexos começaram a sustentar a idéia, baseados em sua principal conclusão – a de que o cérebro feminino tende a ser menor –, de que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens.

Até hoje ninguém conseguiu nenhuma evidência de que as diferenças anatômicas tornem as mulheres incapazes de obter distinção acadêmica em matemática, física ou engenharia. E o cérebro de homens e mulheres comprovou ser muito semelhante em vários aspectos. Por outro lado, ao longo da última década, pesquisadores que estudam questões diversas, do processamento da linguagem à navegação, passando pela gravação de memórias emocionais, também revelaram uma série impressionante de variações estruturais, químicas e funcionais entre cérebro de homem e de mulher.

Até não muito tempo atrás, os neurocientistas acreditavam que as diferenças no cérebro de sexos diferentes se limitavam às regiões responsáveis pelo comportamento de acasalamento. Essa visão foi posta de lado por uma onda de descobertas que ressaltam a influência do gênero em várias áreas da cognição e do comportamento, incluindo memória, emoção, visão, audição, processamento de rostos e resposta do cérebro aos hormônios do stress. Esse avanço se acelerou nos últimos dez anos com o uso de técnicas de imageamento sofisticadas e não-invasivas, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a ressonância magnética funcional (RMf), com as quais é possível observar o cérebro em ação.

As divergências não são apenas idiossincrasias curiosas para explicar por que os homens gostam mais dos Três Patetas do que as mulheres. Elas suscitam a possibilidade de precisarmos desenvolver tratamentos específicos de acordo com o sexo para problemas como depressão, vício, esquizofrenia e transtorno do stress pós-traumático. Estudiosos da estrutura e do funcionamento do cérebro devem levar em consideração o sexo de seus objetos de pesquisa ao analisar dados – e incluir tanto homens quanto mulheres em estudos futuros, para evitar resultados enganosos.

(Adaptado de Scientific American Brasil, Edição 37, jun. 2005.)

Os quadrinhos abaixo têm o mesmo tema que o texto “Ele, Ela”:

Tira cômica "Os Cientistas" de Jão, com subtítulo "Derivada: a menina que calculava". Na sala de aula, a professora avisa à turma: "Só um de vocês acertou todas as questões de cálculo". Três meninos apostam entre si: "Moleza, só pode ser o Zildinho!", "Não, é o Zeca", "Que nada, foi o Salsicha!". A professora completa: "Bem... desta vez não foi um garoto... foi a Derivada". Os meninos reagem assustados e surpresos: "U-uma menina?!", enquanto a menina sorri satisfeita.

(Folha de S. Paulo, 17 set. 2005, p. F8.)

Tomando como base esses quadrinhos e o texto “Ele, Ela”, considere as seguintes afirmativas:

I. Os quadrinhos corroboram a afirmação de que diferenças anatômicas tornam as mulheres incapazes de ser bem sucedidas nas ciências exatas.
II. A manifestação espontânea de preconceito expressa pelos meninos nos quadrinhos assemelha-se à opinião de Lawrence Summers, fundada em dados de anatomia.
III. A expressão “desta vez” na fala da professora reforça a opinião do presidente da Universidade Harvard.
IV. Para o autor dos quadrinhos, como para Lawrence Summers, o bom desempenho das mulheres em matemática é raro: o nome da personagem e o suspense criado pela professora são indícios dessa opinião.

Assinale a alternativa correta.

  1. A
    Somente as afirmativas I e II são verdadeiras.
  2. B
    Somente as afirmativas I e III são verdadeiras.
  3. C
    Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras.
  4. D
    Somente as afirmativas II e III são verdadeiras.
  5. E
    Somente as afirmativas I, II e IV são verdadeiras.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

Vamos avaliar cada afirmativa com base no texto e na tira.

I. Falsa. O texto diz que "até hoje ninguém conseguiu nenhuma evidência" de que diferenças anatômicas tornem as mulheres incapazes nas ciências exatas. A tira, por sua vez, mostra uma menina acertando todas as questões de cálculo, o que não corrobora a afirmação.

II. Verdadeira. Os meninos apostam só em garotos e se espantam com "U-uma menina?!". É um preconceito espontâneo, que supõe que o bom desempenho em cálculo é coisa de homem. Isso se assemelha à opinião de Summers, que atribuiu a escassez de mulheres na ciência a diferenças inatas do cérebro. A diferença é que Summers se apoiou em dados de anatomia, e a afirmativa já reconhece isso.

III. Verdadeira. "Desta vez" sugere que, em geral, quem acerta é um garoto e que a menina é a exceção. Isso reforça a ideia de que mulheres vão mal em exatas, como Summers sugeriu.

IV. Verdadeira. O suspense da professora ("Bem... desta vez não foi um garoto...") e o nome "Derivada" indicam que o bom desempenho feminino em matemática é tratado como raro.

Portanto, são verdadeiras II, III e IV.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AInclui a I, falsa: o texto diz não haver evidência de incapacidade, e a tira mostra uma menina acertando tudo.
  • BInclui a I, falsa, e deixa de fora a II e a IV, que são verdadeiras.
  • DOmite a IV, que também é verdadeira: o nome e o suspense indicam que o bom desempenho feminino é visto como raro.
  • EInclui a I, falsa, e deixa de fora a III, que é verdadeira.

Assuntos: Intertextualidade e comparação entre textos, Charge, tirinha, cartum e HQ.

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Fonte: UFPR 2006 · 1ª fase. Prova oficial ↗