Questão 2 (1º exame) da UERJ 2027
Texto-base das questões 01 a 08 · 1º Exame de Qualificação
A GEOPOLÍTICA NAS LENTES DE SEBASTIÃO SALGADO
A ausência de Sebastião Salgado deixará um profundo vazio no panorama da fotografia documental, especialmente por sua capacidade ímpar de humanizar questões geopolíticas complexas e dar voz aos invisíveis através de imagens poderosas e atemporais. Seu olhar fotográfico carrega mais que técnica e estética: revela um território humano marcado por desigualdades, deslocamentos, resistências e esperanças. Obras como Terra, Êxodos e Gênesis não são apenas coleções de imagens; elas refletem e desvendam a geopolítica contemporânea em toda a sua crueza e complexidade.
O livro Terra (1997) é um marco na trajetória do fotógrafo, ao se dedicar ao drama dos trabalhadores rurais sem-terra no Brasil. Suas fotografias revelam um território em disputa, onde a terra se configura como palco de uma intensa luta política entre forças antagônicas. De um lado, o latifúndio historicamente consolidado que favoreceu a formação de grandes propriedades, muitas vezes improdutivas. De outro, os sujeitos coletivos que lutam pela reforma agrária e pela justiça social.
Segundo o geógrafo Milton Santos, o território não é apenas um espaço físico, mas o espaço apropriado por relações de poder. As imagens de Salgado escancaram essa estrutura fundiária excludente e altamente concentrada, que molda a geopolítica interna do Brasil a partir do acesso à terra e de sua função social. Em termos geopolíticos, a terra no Brasil é, sobretudo, um recurso estratégico: quem a detém concentra poder político, econômico e simbólico.
Com Êxodos (2000), Sebastião Salgado volta seu olhar para o fenômeno global dos deslocamentos em massa, fenômeno que a ONU classifica como sendo a maior crise humanitária desde 1945. Nesse trabalho, Salgado percorre territórios devastados por guerras, fome, perseguição e pobreza, oferecendo uma narrativa visual das consequências de um sistema-mundo excludente. Seus retratos de migrantes africanos e refugiados evidenciam uma clara contradição: enquanto um mundo de elevado poder tecnológico facilita a acelerada movimentação de capitais, investimentos e mercadorias entre os países, a livre circulação de pessoas permanece severamente restrita. As imagens de Salgado não apenas documentam a realidade; elas a contestam, ao revelar o sofrimento invisível nas estatísticas e nas decisões políticas de âmbito internacional.
Gênesis (2013), por sua vez, volta-se para os espaços ainda preservados, mas igualmente ameaçados por essa mesma ordem global. Nesse ensaio, Salgado nos apresenta uma “homenagem ao planeta em seu estado natural”. A obra foi concebida em territórios estratégicos do ponto de vista ecológico e geopolítico: a Amazônia, o Ártico, o Saara, as florestas tropicais do Congo e o arquipélago de Galápagos. Mais que simples reservas ambientais, essas zonas são ativos geopolíticos cruciais, onde se sobrepõem interesses conservacionistas, extrativistas, militares e indígenas, tornando-as focos de disputa e poder.
Ao retratar comunidades indígenas, Salgado as eleva de meras curiosidades etnográficas a atores geopolíticos fundamentais na defesa de seus territórios e de seus modos de vida. Com seu conhecimento milenar e práticas sustentáveis, esses povos são os verdadeiros guardiões da biodiversidade, e a preservação de sua cultura e de seu território constitui um ato de resistência contra o avanço do agronegócio, da mineração e da exploração.
A arte de Sebastião Salgado não é apenas um testemunho sensível da condição humana, é uma denúncia visual das engrenagens que sustentam a desigualdade planetária. Suas imagens não confortam, inquietam; não embelezam a tragédia, revelam sua origem estrutural. Salgado nos devolve o espelho de um mundo fraturado, onde a barbárie convive com a resistência. Cabe a nós decidir: vamos seguir contemplando as ruínas com olhos vazios, ou enxergar nelas os contornos de um outro futuro possível?
MAURÍCIO ALFREDO
Adaptado de diplomatique.org.br, 05/06/2025.
As imagens de Salgado não apenas documentam a realidade; elas a contestam, ao revelar o sofrimento invisível nas estatísticas e nas decisões políticas de âmbito internacional. (\ell. 23-25)
Na frase acima, ao se referir às imagens, o autor reconhece nelas um aspecto típico da linguagem humana, que é sua possibilidade de:
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Fonte: UERJ 2027 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗