PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 3 da UERJ 2021

Exame de Qualificação · Interdisciplinar

Texto-base das questões 01 a 04 · Exame Único

Morro velho

No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu. Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu. Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer. Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada.

Filho do branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho. Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos. Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver. Orgulhoso camarada conta histórias pra moçada.

Filho do sinhô vai embora, tempo de estudos na cidade grande. Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante. “Não me esqueça, amigo, eu vou voltar.” Some longe o trenzinho ao deus-dará.

Quando volta já é outro, trouxe até sinhá-mocinha para apresentar. Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá. Já tem nome de doutor e agora na fazenda é quem vai mandar. E seu velho camarada já não brinca, mas trabalha.

MILTON NASCIMENTO
Adaptado de miltonnascimento.com.br.

A história da casa-grande é íntima de quase todo brasileiro: de sua vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; da sua vida de menino. Nas casas-grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro, a nossa continuidade social.

Adaptado de Freyre, G. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 1995.

Publicado em 1933, Casa-grande & senzala tornou-se livro de referência nas análises sobre patriarcalismo na sociedade brasileira.

Na letra da canção Morro velho, aspectos das relações patriarcais são abordados, entre eles a “continuidade social”, presente na seguinte passagem:

  1. A
    No sertão da minha terra, / fazenda é o camarada que ao chão se deu. (v. 1-2)
  2. B
    Orgulhoso camarada conta histórias pra moçada. (v. 14)
  3. C
    Parte, tem os olhos tristes, / deixando o companheiro na estação distante. (v. 17-18)
  4. D
    Já tem nome de doutor / e agora na fazenda é quem vai mandar. (v. 25-26)
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
Reportar erro na questão
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Resolução comentada

O trecho de Freyre fala da casa-grande como espaço em que se expressa a "continuidade social": a estrutura patriarcal (senhor mandando, trabalhador subordinado) se reproduz de geração em geração.

Na canção, os dois meninos, filho do branco e filho do preto, brincam juntos na infância. Na vida adulta, porém, cada um assume o lugar que a hierarquia lhe reserva:

  1. O filho do sinhô vai estudar na cidade e volta "doutor".
  2. Ao voltar, ele passa a ser "quem vai mandar" na fazenda, herdando o lugar do pai.
  3. O amigo, o "velho camarada", "já não brinca, mas trabalha", ou seja, segue na posição subalterna do pai e do avô.

A passagem dos versos 25-26 mostra exatamente essa transmissão do poder de pai para filho, mantendo a ordem social patriarcal. É a continuidade: o herdeiro assume o mando e o trabalhador continua trabalhando.

As demais passagens descrevem outras coisas: a ligação do camarada com a terra, o papel de contador de histórias e a despedida dos amigos. Nenhuma trata da transmissão do poder.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AMostra o vínculo do trabalhador com a terra e seu esforço, sem tratar da transmissão do poder entre gerações.
  • BDescreve o camarada como contador de histórias, um traço cultural, não a reprodução da hierarquia.
  • CRetrata a despedida e a tristeza da separação dos amigos, não a herança do mando.

Assuntos: patriarcalismo, Gilberto Freyre, interpretação de letra de canção.

Reportar erro na resolução
O que está errado?
Sem cadastro: não guardamos quem enviou.
Ver como caiu na prova Questão 3 no caderno Exame Único da UERJ 2021

Fonte: UERJ 2021 · Exame Único. Prova oficial ↗