PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 9 (2º exame) da UERJ 2020

2º exame · Interdisciplinar · Geografia: Formação e integração do território brasileiro

Texto-base das questões 01 a 09 · 2º Exame de Qualificação

O QUE NOSSAS METÁFORAS DIZEM DE NÓS

Para o poeta Robert Frost, a vida era um caminho que passa por encruzilhadas inevitáveis; para Fernando Pessoa, uma sombra que passa sobre um rio. Shakespeare via o mundo como um palco e Scott Fitzgerald percebia os seres humanos como barcos contra a corrente. Metáforas como essas nos rodeiam, mas não só quando seguramos um livro nas mãos. Em nosso uso cotidiano da língua, elas são tão presentes que nem sequer percebemos. São exemplos “teto de vidro impede a carreira das mulheres”, “a bolha do aluguel”, “cortar o mal pela raiz”. Considerada a forma por excelência da linguagem figurada, a metáfora às vezes é tida como mero embelezamento do discurso.

Entretanto, desde 1980, com a publicação do livro Metáforas da vida cotidiana, essa figura retórica recuperou seu protagonismo. Os autores George Lakoff e Mark Johnson mostraram que as alegorias desenham o mapa conceitual a partir do qual observamos, pensamos e agimos. Com frequência são nossa bússola invisível, orientando tanto os gestos instintivos que fazemos como as decisões mais importantes que tomamos. É muito provável que aqueles que concebem a vida como uma cruz e os que a entendem como uma viagem não reajam da mesma forma ante um mesmo dilema. As metáforas são ferramentas eficazes e de múltiplas utilidades. Ao partir de elementos já conhecidos, nos ajudam a examinar realidades, conceitos e teorias novas de uma maneira prática. Também nos servem para abordar experiências traumáticas nas quais a linguagem literal se revela impotente. São vigorosos atalhos que a mente usa para assimilar situações complexas em que a literalidade acaba sendo tediosa, limitada e confusa. É mais fácil para nós entender que a depressão é uma espécie de buraco negro e que o DNA é o manual de instruções de cada ser vivo.

As figurações dão coesão às identidades coletivas, pois circulam sem cessar até se incorporarem à linguagem cotidiana. Há alguns anos, os psicólogos Paul Thibodeau e Lera Boroditsky, da Universidade Stanford (E.U.A.), analisaram os resultados de um debate sobre políticas contra a criminalidade que recorria a duas metáforas. Quando o problema era ilustrado como se houvesse predadores devorando a comunidade, a resposta era endurecer a vigilância policial e aplicar leis mais severas. No entanto, quando o problema era exposto como um vírus infectando a cidade, a opção era a de adotar medidas para erradicar a desigualdade e melhorar a educação. Comparações ruins levam a políticas ruins, escreveu o Nobel de Economia Paul Krugman.

No campo da medicina, tem havido mudanças de paradigma no que diz respeito ao impacto emocional das metáforas. Num recente seminário organizado pela Universidade de Navarra (Espanha), a linguista Elena Semino dissertou sobre os efeitos de abordar o câncer como se fosse uma guerra, provocando sensações negativas quando o paciente acredita estar “perdendo a batalha”, mesmo que isso possa ser estimulante para outros. O erro, segundo a especialista, reside em misturar os campos semânticos da guerra e da saúde. Para corrigir essa questão, a linguista elabora o que chama de “cardápio de metáforas”, para que médicos e pacientes enfrentem a doença de forma mais construtiva.

As boas metáforas nos trazem outras perspectivas, fronteiras menos rígidas e novas categorizações que substituem aquelas já desgastadas.

MARTA REBÓN
Adaptado de brasil.elpais.com, 11/04/2018.

Mapa histórico do Brasil no século XVII, com o título "Século XVII: o Brasil que era um arquipélago", destacando a linha do Meridiano de Tordesilhas e manchas dispersas de ocupação econômica pelo território: drogas do sertão na bacia amazônica, cana-de-açúcar no litoral do Nordeste e do Sudeste, áreas de pecuária com setas indicando eixos de expansão para o sertão nordestino e no Sul, pontos de ocorrência de ouro próximos a São Paulo, e a região ocupada pelos holandeses no litoral nordestino.

Adaptado de THÉRY, H.; MELLO, N. A. de. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: EDUSP; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

A partir da análise do mapa, constata-se que o uso da metáfora do “arquipélago” no título da imagem expressa a seguinte característica da organização espacial do Brasil naquele momento:

  1. A
    reduzida integração econômica do território colonial
  2. B
    desigual distribuição regional da atividade industrial
  3. C
    excessiva diluição política do poder governamental
  4. D
    acentuada fragmentação fundiária da propriedade rural
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Resolução comentada

Uma metáfora transfere para um elemento a ideia de outro. Aqui, o título compara o Brasil do século XVII a um arquipélago: um conjunto de ilhas separadas por água, com pouca ligação entre si.

O mapa mostra as atividades econômicas em manchas isoladas:

  1. As drogas do sertão ficam na bacia amazônica.
  2. A cana-de-açúcar aparece em faixas estreitas do litoral, no Nordeste e no Sudeste, perto de Salvador, Recife e Rio de Janeiro.
  3. A pecuária ocupa o sertão nordestino e o Sul, com setas de expansão partindo do litoral.
  4. O ouro surge em pontos pequenos, perto de São Paulo.

Entre essas "ilhas" há grandes áreas vazias, sem ocupação econômica registrada, e os rios aparecem como caminhos que ligam pouco as regiões entre si. Cada área tinha ligação maior com o litoral e com a metrópole do que com as outras. Portanto, "arquipélago" expressa a baixa integração econômica do território colonial.

As demais alternativas não aparecem no mapa. Ele não mostra indústria, que quase não existia na colônia, nem poder político disperso, nem divisão de propriedades rurais.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO mapa trata de atividades agrícolas, extrativas e pecuárias; indústria praticamente não existia na colônia.
  • CO mapa não representa divisão do poder político; mostra a ocupação econômica.
  • DNão há dados sobre o tamanho ou a divisão das propriedades rurais; as manchas indicam atividades, não fragmentação fundiária.

Assunto: Formação e integração do território brasileiro.

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Ver como caiu na prova Questão 9 no caderno 2º Exame de Qualificação da UERJ 2020

Fonte: UERJ 2020 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗