PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 14 (1º exame) da UERJ 2019
Texto-base das questões 12 a 14 · 1º Exame de Qualificação
A flutuação do gosto em relação aos poetas é normal, como é normal a sucessão dos modos de fazer poesia. Pelo visto, Vinicius de Moraes anda em baixa acentuada. Talvez o seu prestígio tenha diminuído porque se tornou cantor e compositor, levando a opinião a considerá-lo mais letrista do que poeta. Mas deve ter sido também porque encarnou um tipo de poesia oposto a certas modalidades para as quais cada palavra tende a ser objeto autônomo, portador de maneira isolada (ou quase) do significado poético.
Na história da literatura brasileira ele é um poeta de continuidades, não de rupturas; e o nosso é um tempo que tende à ruptura, ao triunfo do ritmo e mesmo do ruído sobre a melodia, assim como tende a suprimir as manifestações da afetividade. Ora, Vinicius é melodioso e não tem medo de manifestar sentimentos, com uma naturalidade que deve desgostar as poéticas de choque. Por vezes, ele chega mesmo a cometer o pecado maior para o nosso tempo: o sentimentalismo. Isso lhe permitiu dar estatuto de poesia a coisas, sentimentos e palavras extraídos do mais singelo cotidiano, do coloquial mais familiar e até piegas, de maneira a parecer muitas vezes um seresteiro milagrosamente transformado em poeta maior. João Cabral disse mais de uma vez que sua própria poesia remava contra a maré da tradição lírica de língua portuguesa. Vinicius seria, ao contrário, alguém integrado no fluxo da sua corrente, porque se dispôs a atualizar a tradição. Isso foi possível devido à maestria com que dominou o verso, jogando com todas as suas possibilidades.
Ele consegue ser moderno usando metrificação e cultivando a melodia, com uma imaginação renovadora e uma liberdade que quebram as convenções e conseguem preservar os valores coloquiais. Rigoroso como Olavo Bilac, fluido como o Manuel Bandeira dos versos regulares, terra a terra como os poemas conversados de Mário de Andrade, esse mestre do soneto e da crônica é um raro malabarista.
ANTONIO CANDIDO
Adaptado de Teoria e debate, n° 49. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, out-dez, 2001.
Com base nas ideias apresentadas no texto, a metáfora um raro malabarista (\ell. 22) sugere que o poeta articula os seguintes aspectos em sua poesia:
- Ahumor e seriedade
- Btradição e inovação
- Cerudição e formalismo
- Dmusicalidade e silêncio
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Resolução comentada
Malabarista é quem equilibra e combina vários elementos ao mesmo tempo. A metáfora, então, resume o que o autor vem dizendo sobre Vinicius: ele consegue reunir coisas que normalmente parecem opostas.
Veja o que o texto afirma:
- Vinicius é "um poeta de continuidades, não de rupturas", que "se dispôs a atualizar a tradição" (lado da tradição).
- Ele usa metrificação e melodia, como Bilac e o Bandeira dos versos regulares (formas tradicionais).
- Ao mesmo tempo, "consegue ser moderno", com "imaginação renovadora e uma liberdade que quebram as convenções", e preserva o coloquial (lado da inovação).
O malabarista, portanto, mantém no ar a herança poética e a renovação. A frase imediatamente anterior à metáfora cita Bilac (rigor), Bandeira (fluidez) e Mário de Andrade (coloquialidade), mostrando a mistura de procedimentos tradicionais e modernos.
As outras alternativas não correspondem ao texto: o humor não é tema central, a erudição não é elogiada (ele vai ao coloquial e ao "piegas"), e o silêncio não aparece, pois o poeta é "melodioso".
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto não trata de humor e seriedade; o contraste destacado é entre continuidade da tradição e renovação.
- CFormalismo cabe à metrificação, mas erudição contradiz o uso do coloquial e do cotidiano singelo.
- DO texto elogia a melodia de Vinicius e não menciona silêncio na sua poesia.
Assuntos: Modernismo: Semana de 22 e primeira geração, Figuras de palavra: metáfora, comparação e metonímia.
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Fonte: UERJ 2019 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗