PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 8 (2º exame) da UERJ 2017
Texto-base das questões 05 a 08 · 2º Exame de Qualificação
Resisti a entrar para o Facebook e, mesmo quando já fazia parte de sua rede, minha opinião sobre ela não era das melhores: fragmentação da percepção, e portanto da capacidade cognitiva; intensificação do narcisismo exibicionista da cultura contemporânea; império do senso comum; indistinção entre o público e o privado. Não sei se fui eu quem mudou, se foram meus "amigos" ou se foi a própria rede, mas, hoje, sem que os traços acima tenham deixado de existir, nenhum deles, nem mesmo todos eles em conjunto me parecem decisivos, ao menos na minha experiência: agora compreendo e utilizo a rede social como a televisão do século XXI, com diferenças e vantagens sobre a TV tradicional.
A internet, as tecnologias wiki de interação e as redes sociais têm uma dimensão, para usar a expressão do escritor Andrew Keen, de "culto do amador", mas tal dimensão convive com o seu oposto, que é essa crítica da mídia tradicional pela nova mídia, cujos agentes muitas vezes nada têm de amadores. Assim, a metatelevisão do Facebook opera tanto selecionando conteúdo da TV tradicional como submetendo-o à crítica. E faz circular ainda informações que a TV, por motivos diversos, suprime. Alguns acontecimentos recentes, no Brasil e no mundo, tiveram coberturas nas redes sociais melhores que nos canais tradicionais. A divergência é uma virtude democrática, e as redes sociais têm contribuído para isso (e para derrubar ditaduras onde não há democracia).
A publicização da intimidade, sem nenhuma transfiguração que lhe confira o estatuto de interesse público, é muito presente na rede. Deve-se lembrar, entretanto, que redes sociais não são exatamente um espaço público, mas um espaço privado ampliado ou uma espécie nova e híbrida de espaço público-privado. Seja como for, aqui também é o usuário que decide sobre o registro em que prevalecerá sua experiência. E não se deve exagerar no tom crítico a essa dimensão; o registro imaginário, narcisista, de promoção do eu é humano, demasiadamente humano, e até certo ponto necessário. Deve-se apenas relativizá-lo; ora, essa relativização vigora igualmente nas redes sociais. Além disso, a publicização da intimidade não significa necessariamente autopromoção do eu. Ela pode ativar uma dimensão importante da comunicação humana.
Roland Barthes, escritor francês, costumava dizer que a linguagem sempre diz o que diz e ainda diz o que não diz. Por exemplo, ao citar o nome de Barthes, estou, além de dizer o que ele disse, dizendo que eu o li, que sou um leitor culto. Esse tema do que passa por meio de, indiretamente, era importante para Barthes. Ele adorava o caso da brincadeira de passar o anel, onde o que está em jogo é tanto o roçar das mãos quanto o destino do objeto. Pois bem, fui percebendo que a escrita nas redes sociais é uma forma de roçar as mãos, tanto quanto de saber, afinal, onde foi parar o anel. O indireto dessa escrita, o que por meio dela se diz, é uma pura abertura ao outro.
FRANCISCO BOSCO
Adaptado de Alta ajuda. Rio de Janeiro: Foz, 2012.
Esse tema do que passa por meio de, indiretamente, era importante para Barthes. (\ell. 29-30)
Com base na compreensão do último parágrafo, a expressão que pode substituir o trecho sublinhado é:
- Adas sugestões implícitas
- Bdas negações assumidas
- Cdas metáforas cristalizadas
- Ddos eufemismos recorrentes
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Resolução comentada
No último parágrafo, Barthes afirma que a linguagem "diz o que diz e ainda diz o que não diz". O exemplo é a citação do nome do autor: além de dizer o que ele disse, o texto indica, sem declarar, que quem escreve o leu e é culto. Esse sentido vem por meio de, de modo indireto.
A brincadeira de passar o anel segue a mesma ideia: o jogo declarado é passar o objeto, mas o que também está em jogo, sem ser dito, é o roçar das mãos. O "indireto" da escrita nas redes, segundo o autor, é uma "abertura ao outro".
Portanto, "o que passa por meio de, indiretamente" designa os sentidos que não são ditos às claras, mas ficam subentendidos na comunicação. Isso corresponde a sugestões implícitas.
As demais opções trazem noções que o texto não desenvolve:
- negar algo de forma assumida;
- metáforas já desgastadas pelo uso;
- atenuação de ideias desagradáveis por eufemismo.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BO texto não trata de negações; o que passa indiretamente é sentido implícito, não algo negado.
- CMetáforas cristalizadas são figuras desgastadas pelo uso, e o parágrafo não trata disso.
- DEufemismo é suavizar algo desagradável, o que não aparece no parágrafo; o sentido indireto aqui é neutro, até afetivo.
Assunto: Sentido das palavras: sinonímia, antonímia e campo semântico.
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Fonte: UERJ 2017 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗