PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (1º exame) da UERJ 2016
Texto-base das questões 09 a 12 · 1º Exame de Qualificação
A ARTE DE ENGANAR
Em seu livro Pernas pro ar, Eduardo Galeano recorda que, na era vitoriana, era proibido mencionar “calças” na presença de uma jovem. Hoje em dia, diz ele, não cai bem utilizar certas expressões perante a opinião pública: “O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado; imperialismo se chama globalização; suas vítimas se chamam países em via de desenvolvimento; oportunismo se chama pragmatismo; despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral” etc.
A lista é longa. Acrescento os inúmeros preconceitos que carregamos: ladrão é sonegador; lobista é consultor; fracasso é crise; especulação é derivativo; latifúndio é agronegócio; desmatamento é investimento rural; lavanderia de dinheiro escuso é paraíso fiscal; acumulação privada de riqueza é democracia; socialização de bens é ditadura; governar a favor da maioria é populismo; tortura é constrangimento ilegal; invasão é intervenção; peste é pandemia; magricela é anoréxica.
Eufemismo é a arte de dizer uma coisa e acreditar que o público escuta ou lê outra. É um jeitinho de escamotear significados. De tentar encobrir verdades e realidades.
Posso admitir que pertenço à terceira idade, embora esteja na cara: sou velho. Ora, poderia dizer que sou seminovo! Como carros em revendedoras de veículos. Todos velhos! Mas o adjetivo seminovo os torna mais vendáveis.
Coitadas das palavras! Elas são distorcidas para que a realidade, escamoteada, permaneça como está. Não conseguem, contudo, escapar da luta de classes: pobre é ladrão, rico é corrupto. Pobre é viciado, rico é dependente químico.
Em suma, eufemismo é um truque semântico para tentar amenizar os fatos.
Frei Betto
Adaptado de O Dia, 21/03/2015.
No segundo parágrafo, o emprego de certa estrutura encaminha a reflexão do leitor para os disfarces que a linguagem permite.
Essa estrutura é caracterizada principalmente por:
- Amodalização
- Bpressuposição
- Cexemplificação
- Dparticularização
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Resolução comentada
O segundo parágrafo é uma sequência de pares do tipo "X é Y": "ladrão é sonegador; lobista é consultor; fracasso é crise; especulação é derivativo...". Cada par traz uma palavra crua e o eufemismo que a disfarça.
O que o autor faz, portanto, é listar casos concretos de eufemismo. Eles ilustram a tese de que a linguagem pode maquiar a realidade, que é definida só no terceiro parágrafo ("Eufemismo é a arte de dizer uma coisa...").
Examinando as alternativas:
- Modalização: seria o uso de marcas que indicam a atitude do falante, como "talvez", "certamente" ou "é possível que". Não aparecem no parágrafo, que só afirma.
- Pressuposição: seria informação implícita, deduzida de certas palavras. Aqui as equivalências estão explícitas.
- Exemplificação: é a apresentação de casos que ilustram uma ideia geral. É exatamente o que a lista faz, e por isso conduz o leitor a perceber os disfarces da linguagem.
- Particularização: seria restringir o assunto a um caso específico. A lista é longa e variada, não se fixa em um só caso.
A estrutura caracterizada principalmente pelas listas de exemplos é a exemplificação.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AModalização exigiria marcas de atitude ou dúvida do autor (talvez, certamente), ausentes no parágrafo.
- BPressuposição trata de informações implícitas, mas as equivalências "X é Y" estão ditas às claras.
- DParticularização seria restringir o tema a um caso específico; o parágrafo enumera muitos casos distintos.
Assunto: Estratégias e tipos de argumento.
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Fonte: UERJ 2016 · 1º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗