PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (2º exame) da UERJ 2016
Texto-base das questões 08 a 12 · 2º Exame de Qualificação
O FUTURO ERA LINDO
A informação seria livre. Todo o saber do mundo seria compartilhado, bem como a música, o cinema, a literatura e a ciência. O custo seria zero. O espaço seria infinito. A velocidade, estonteante. A solidariedade e a colaboração seriam os valores supremos. A criatividade, o único poder verdadeiro. O bem triunfaria sobre os males do capitalismo. O sistema de representação se tornaria obsoleto. Todos os seres humanos teriam oportunidades iguais em qualquer lugar do planeta. Todos seriam empreendedores e inventivos. Todos poderiam se expressar livremente. Censura, nunca mais. As fronteiras deixariam de existir. As distâncias se tornariam irrelevantes. O inimaginável seria possível. O sonho, qualquer sonho, poderia se tornar realidade.
Livre, grátis, inovador, coletivo, palavras-chave do novo mundo que a internet inaugurou. Por anos esquecemos que a internet foi uma invenção militar, criada para manter o poder de quem já o tinha. Por anos fingimos que transformar produtos físicos em produtos virtuais era algo ecologicamente correto, esquecendo que a fabricação de computadores e celulares, com a obsolescência embutida em seu DNA, demanda o consumo de quantidades vexatórias de combustíveis fósseis, de produtos químicos e de água, sem falar no volume assombroso de lixo não reciclado em que resultam, incluindo lixo tóxico.
Ninguém imaginou que o poder e o dinheiro se tornariam tão concentrados em megahipercorporações norte-americanas como o Google, que iriam destruir para sempre tantas indústrias e atividades em tão pouco tempo. Ninguém previu que os mesmos Estados Unidos, graças às maravilhas da internet sempre tão aberta e juvenil, se consolidariam como os maiores espiões do mundo, humilhando potências como a Alemanha e também o Brasil, impondo os métodos de sua inteligência militar sobre a população mundial, e guiando ao arrepio da justiça os bebês engenheiros nota dez em matemática mas ignorantes completos em matéria de ética, política e em boas maneiras.
Ninguém previu a febre das notícias inventadas, a civilização de perfis falsos, as enxurradas de vírus, os arrastões de números de cartão de crédito, a empulhação dos resultados numéricos falseados por robôs ou gerados por trabalhadores mal pagos em países do terceiro mundo, o fim da privacidade, o terrorismo eletrônico, inclusive de Estado.
Marion Strecker
Adaptado de Folha de São Paulo, 29/07/2014.
Ninguém imaginou (\ell. 16)
Ninguém previu (\ell. 18-24)
A repetição do vocábulo ninguém, nos dois últimos parágrafos do texto, reforça o seguinte sentido:
- Aflexibilidade do ponto de vista
- Bcontestação da verdade factual
- Cdimensão do otimismo ingênuo
- Dnecessidade de crítica ao passado
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Resolução comentada
A repetição de um termo no início de frases seguidas é a figura chamada anáfora, usada para dar ênfase. Resta saber o que é enfatizado aqui.
No primeiro parágrafo, a autora lista as promessas da internet: informação livre, custo zero, igualdade de oportunidades, fim da censura. É uma visão muito otimista do futuro.
Nos dois últimos parágrafos, ela mostra o que ninguém imaginou e ninguém previu: a concentração de poder em corporações como o Google, a espionagem norte-americana, as notícias falsas, os perfis falsos, os vírus, o fim da privacidade.
A cada "ninguém", a autora lembra que todos, ela inclusive, acreditaram no sonho e não enxergaram os problemas. Isso revela o quanto aquele otimismo era ingênuo, e é isso que a repetição reforça.
Análise das demais:
- Não há mudança de ponto de vista; a visão é uma só, crítica e retrospectiva.
- Os fatos citados (espionagem, notícias falsas) são afirmados como reais, não contestados.
- A crítica é ao presente e ao que não foi previsto, não a uma necessidade de criticar o passado.
Logo, o sentido reforçado é a dimensão do otimismo ingênuo.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto mantém um único ponto de vista, crítico; não há flexibilidade nem mudança de posição.
- BOs fatos listados são apresentados como verdadeiros; a autora não contesta a verdade factual.
- DA repetição não defende que se critique o passado; ela expõe a ingenuidade de quem não previu os problemas atuais.
Assunto: Efeitos de sentido e recursos expressivos.
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Fonte: UERJ 2016 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗